Pausa

– Açúcar ou adoçante? – perguntou o atendente da cafeteria com incomum cordialidade. Naquele calor, com quem o ar-condicionado travava uma batalha perdida, a má educação era compreensível. Mas o código social não previa tamanha disposição acima dos 40°. Aquela gentileza me deixou sem resposta. Não sabia que gosto queria sentir naquele dia.

Ignorei o açúcar que chegou à mesa. Veio numa cerâmica pequena, pouco maior que a colher que a acompanhava. Tudo naquele lugar era em menor proporção. A cadeira de madeira com as juntas frouxas apoiavam minha coluna com esforço. A mesinha de granito deixava escapar meus cotovelos nas bordas, e controlava meu desleixo cutucando minhas pernas com seus ornamentos de ferro. Mas as paredes em amarelo claro, e com prateleiras de doces, compensavam a rigidez da minha e das outras 5 mesas, tornando o ambiente agradável o suficiente para uma pausa num dia útil.

O doce de leite na prateleira do meio roubou a atenção que meu café antes usufruía. A saliva que banhava minha língua fingia trazer aquele gosto bem comum até pouco tempo. Tão bom que lembrei de quando era usado como moeda de troca por minha mãe. Um cubinho de doce se guardasse na gaveta as revistas em quadrinhos espalhadas pela cama. Dois se terminasse o dever de casa. Anos depois aprendi que nosso pequeno acordo tinha nome: behaviorismo. Nunca uma palavra tão feia me pareceu tão gostosa.

Os salgados vieram com o tempo. Pizzas, hambúrgueres, sanduíches e frituras nutriam músculos e ensebavam a pele. Mas minhas comidas preferidas não eram mais um prêmio por bom comportamento, eram um posicionamento social.

Comer “besteiras”, por exemplo, deveria ficar para trás, assim como a lancheira do Chapolin. Pegava mal, né?

A quebra era tão brusca que muitos diziam que doce e salgado sequer podiam ser misturados. Aparentemente, estava escrito em letras miúdas na 2ª tábua dos 10 mandamentos. E se esse aparte não fosse suficiente, ainda inventavam que salgado era masculino e doce feminino. Mundos completamente diferentes separados pela língua. Assim, o proibido ganhou gosto.

Distraído, mergulhei meu dedo no café e o susto me trouxe de volta. As lembranças se afastaram e pareciam já estar há décadas de distância. E, de fato, estavam.

Olhei ao redor e vi que não era o único nostálgico do lugar. Ao lado, um rapaz mais novo (apesar da barba generosa) tomava chá e desenhava num caderno com fecho de barbante. Próximas à janela com uma horta falsa, duas amigas executivas se divertiam tomando café coado na hora levantando o dedinho ironicamente. E se contorcendo entre as mesas em direção a saída, uma senhor tatuado tirava do bolso um celular com uma câmera analógica na capa.

Tudo era muito familiar. Esquisito, mas familiar.

Mas o líquido já inerte em minha xícara ainda guardava uma lembrança. Um amigo que, para meu espanto, nunca usava qualquer açúcar ou adoçante. Tomava café puro, e era sempre repreendido pela mãe da mesma forma. “Meu filho, de amarga basta a vida.”

Vivi o suficiente para gostar do amargo? Na dúvida, tomei o café frio em um único gole.
E voltei ao trabalho.

Ser homem é outra coisa

Sempre me gabei de saber lidar bem com as mulheres. Mesmo quando criança, e ainda longe de aprender a magoá-las, elas já eram minhas maiores companhias.

Em casa, por exemplo, reinava a maioria feminina. As mulheres da casa, minha mãe e minha tia, formavam o meu caráter e de minha irmã nos apresentando o mundo com atenção e carinho. Assim, eu também aprendia a retribuir o tratamento e levei isso para a vida.

Quando passei a frequentar o colégio, naturalmente me sentia mais à vontade com as meninas da mesma sala. Talvez minha leve aversão à “obrigação” do futebol também tenha ajudado, mas o fato é que gostava de conversar com elas. Tinha a sensação de que o mundo era mais diverso na visão delas. Atentavam para coisas que eu não imaginava, sofriam precocemente com problemas inexistentes para mim e falavam de si com sinceridade para quem as desse ouvidos. Os outros garotos da escola se divertiam mais facilmente, sem dúvida, mas as competições fajutas já começavam a dar às caras e me transtornavam desde cedo.

Ser homem não é tão fácil quanto fazemos parecer. E talvez não o seja, principalmente, por culpa da nossa eterna e obrigatória preocupação em ter que provar a todo momento o quão homem somos de fato. Para isso, faremos qualquer coisa. Aceitaremos desafios esdrúxulos, discutiremos acirradamente pelos assuntos mais mesquinhos, faremos esforços sobre-humanos para impressionar quem mal conhecemos, responderemos a todo e qualquer desaforo, criaremos mini competições com completos estranhos em situações inapropriadas e, se falharmos em qualquer um desses itens, sempre cogitaremos a violência em suas inúmeras formas. Tudo isso pode ser engatilhado a qualquer momento através da lembrança ou pronúncia de uma sequência hipnótica: “homem que é homem…”

Homem que é homem é sempre o melhor, mais esperto e mais forte; é autoridade mesmo sem patente; gosta de esporte, cerveja, carro e relógio; sabe se impor com firmeza; tem a última palavra, a mão pesada, a coxa branca e o queixo quadrado; não tem vaidade, é feio, informal e não distingue mais de 9 cores; não tem frescura, não tem iPhone branco, não combina meia, não leva carrinho ao mercado, não tem filho gay, não chora, não brocha e nem nega fogo… Homem que é homem protege o seu ânus como um templário protegeria o Santo Graal e carrega entre as pernas uma árvore de carvalho secular muito, mas muito maior que todas as outras. E ai de quem negar isso!

Diluído entre tantos e tantos requisitos, está o item mais importante: homem que é homem sabe “domar” uma mulher. Essa lição é aprendida e reforçada em doses homeopáticas por toda a vida. E começa desde cedo, logo depois de sairmos das fraldas (isso quando sequer saímos). Familiares, amigos, colegas e completos desconhecidos, todos autodenominados mestres da “sedução”, colocam-se sempre em prontidão para passar adiante seus conhecimentos para qualquer trouxa que se deixe cair nas garras de uma mulher.

Assim, aprendemos a desmerecer seus sentimentos, a convencê-las a fazer o que não querem, a esconder os nossos “deslizes”, a distorcer os fatos ao nosso favor, a mentir quando descobertos e a convencê-las de que, não importa o erro que cometamos, elas (ou as anteriores) são as verdadeiras culpadas por agirmos assim. Então, basta cobrirmos tudo isso com as melhores intenções, até acreditarmos que realmente estamos certos, que o mundo é assim, que homens e mulheres estão em patamares diferentes e que somos meras vítimas das bruscas mudanças de humor desse bando de mulher maluca.

Afogado em um número crescente de regras, obrigações e expectativas, percebi que o fascínio que as mulheres tanto despertavam antes em mim havia se intimidado e dado lugar a uma coleção de atitudes grosseiras devidamente disfarçadas de falsos galanteios.

Eu não sabia lidar com elas coisíssima nenhuma. Estava apenas seguindo um manual gasto e com manchas amarelas escrito por outros tão egocêntricos quanto eu.

Foi preciso me reconhecer como machista para perceber que eu precisava mudar. E para aprender a ser um homem de verdade, resolvi fazer o que as mulheres que conheci sempre fizeram muito bem por mim: ouvir.

Dotado de nova postura, passei a conversar mais com todas elas, ler o mesmo que liam e a tentar ver o mundo por seus olhos. Queria aprender sobre suas experiências, interpretações, questionamentos e tudo o que não tinha dado oportunidade para que falassem. Eu precisava exercer a empatia que aquele manual parecia desconhecer. E me assustei bastante com tudo que ouvi.

Conheci histórias de mulheres que mudaram de cidade por terem sido violentadas, que desenvolveram depressão por anos de assédio moral do marido, que foram espancadas ao tentarem acabar um namoro, que desistiram de frequentar o cinema por cansarem de ver homens se “exibindo” para elas, que evitavam sair sozinhas mesmo que até a esquina de casa, que eram impedidas pela família de buscar independência, que receberam ameaças por anos de ex-namorados inconformados…

Saber desses casos por pessoas próximas a mim eram de fato suficientes para me colocar no lugar delas, mas não para me identificar com aqueles homens. Afinal, não me considero capaz de cometer atrocidades como essas. Mas explosões não acontecem do nada.

Eu sabia que havia magoado muitas mulheres. E por mais implacável que meu egoísmo tenha se apresentado então, o incômodo no fundo da memória persistia.

Os fantasmas voltavam em forma de palavras e lágrimas tão familiares quanto previsíveis. As personagens eram outras, o ambiente também. Mas, se chegava ao ponto de ser quase enfadonho passar pelos mesmos dramas, era sinal de que o problema estava no único elemento a se repetir. Eu precisava mudar. E o fiz.

Com novos olhos, enxerguei o meu desastre: o papel de “homem” que eu achava divertido seguir. Não só isso, eu acreditava que precisava seguí-lo. Com o apoio de quem amo — e até por quem amo — comecei a arrancar da minha personalidade tudo que remetesse a isso. Seguir esse padrão já havia atrasado minha vida o suficiente.

Assim, adotei uma nova ideologia compatível com a mudança que buscava. Uma tão deturpada pelo meu gênero que chega a ser engraçado a discrepância entre meu preconceito e o que aprendi sobre ela. Tornei-me um feminista.

Aprendi algo tão óbvio que é até vergonhoso ter que dizer, mas mulher também é gente. Todas elas. Não apenas quem nos pariu. Todas. E elas não deixam de ser gente porque as classificamos como vagabundas, barangas, musas, deusas, troféus ou fábricas de varões. Não precisamos cultuá-las nem rebaixá-las. Tratar como gente já é de bom grado.

Os frutos dessa mudança eu já colhi. 30 anos e tantos amores depois, posso dizer que pela primeira vez na vida eu não me sinto um garoto tentando ser adulado pela figura feminina mais próxima. Mas sim um homem de verdade tendo um relacionamento sincero com a mulher que ama. E, nossa, como isso me faz bem!

Trinta

Estou velho. Padeço de uma velhice intrínseca, própria, preguiçosa e prazerosa. Queria estar velho. E por muito tempo imaginei que nunca ficaria. Apeguei-me tanto aos primeiros anos que acreditei piamente que não acabariam. Sentia que a juventude me caía bem, mas que não me pertencia. Era apenas uma casca que nutria o velho que me tornaria. E a cada nova dor sentida com pressões exageradas nos tendões, cada ranger de ossos que se roçavam quando não deveriam sequer se tocar, cada camada de pele arrancada com quedas, tropeços e insolações, o velho resmungava lá de dentro tentando adiar seu despertar. Desculpa, velho, mas ansiava conhecê-lo.

Tinha 3 anos. O sol queimava o barro do telhado da casa de minha avó com um ódio não correspondido. As janelas e portas escancaradas deixavam entrar um vento forte que secava o suor das quase vinte pessoas de dentro da casa. Pais, tios, primos e avós maternos riam e comiam sem parar enquanto faziam graça uns com os outros. Às vezes se engasgavam quando trocavam a ordem, e aí eu que ria. “Adultos falam alto porque são grandes. Por isso minha tia baixinha falava mais baixo.”

Eu brincava sentado no chão no meio da sala com meu brinquedo favorito: um gravador. Aprendi a usá-lo em 2 minutos e não queria mais nada da vida. O mundo sacudia ao meu redor a cada gargalhada de meus tios gigantes e a cada passo pesado que desviava da minha cabeça. Eu narrava todos os acontecimentos para o gravador e ria sozinho da minha própria voz. Descrevia a vaca que passava pela janela balançando o sino no pescoço, a lagartixa que se esgueirava pelo canto da parede e causava nojo em alguma das tias que a viam, o cheiro de cigarro da mesa verde onde se aglomeravam os homens da casa, e imaginava o próximo prato de comida que minha avó traria. Torcia pra ela fazer “bruaca” só por causa do nome.

Quando me entediei de brincar sozinho, saí pela casa pedindo para cada um falar alguma coisa para o gravador. Falavam, eu gravava, depois repetia o que diziam imitando cada um. Conheci a impaciência adulta quando um dos tios gritou: Para, que DROGA, Rafael! Corri rapidinho para o móvel central, encostei o gravador, segurei o microfone com as duas mãos e falei em voz crescente para o aparelho: Tio Bill falando: dooooga. “Quando grito, viro adulto.”

Tinha 10 anos. Perguntavam-me com frequência o que queria ser quando crescer e eu dizia: motorista de caminhão. Já tinha aprendido que as respostas que causavam risos ou nervosismo eram sempre as melhores. Mas às vezes respondia “professor” para seguir os pais. Também sabia que agradar aos pais era importante. E foi essa a resposta que escolhi para o casal desconhecido que compartilhavam conosco a área da piscina do prédio.

O filho deles era mais novo que eu e brincava com um submarino de plástico na borda da piscina, pois ainda não sabia nadar. Eu, com anos de experiência em natação em açudes no interior, fui encarregado por meu pai de cuidar do filho alheio. O peso da responsabilidade me agradava, mas a teimosia da criança me aborrecia. Ficava no raso, mas corria pela borda para o lado fundo da piscina quando eu me afastava dele para nadar. Cansado de ser responsável, saio da água e fico ao lado do meu pai ouvindo a conversa. Duplamente entediado, volto para a piscina e não encontro mais o garoto. Vejo o submarino de plástico boiando a poucos palmos da borda oposta, mas nem sinal do filho do casal por perto. Estico o pescoço enquanto me aproximo da piscina e mergulho ao avistar a criança debaixo d’água. Submerso, tento segurar seus braços, mas ele me puxa pelos cabelos enquanto se debate. Abaixo a cabeça, apoio-o com as duas mãos e o levanto para fora da água e ouço um grito abafado. Ele cai novamente se debatendo e eu não consigo mais segurá-lo. Meu pai mergulha, consegue arrancá-lo da água e eu dou num sinal de que estou bem. Os pais foram os últimos a chegar e abraçaram o filho que desengasgava tentando respirar. Entrego o submarino para o menino com os olhos roxos e vejo-os ir embora. Volto para casa enrolado numa toalha e, quando meu pai conta à minha mãe que salvei uma vida, digo: Quando crescer, quero ser bombeiro. “Adultos cuidam dos outros.”

Tinha 17 anos. Entrara na faculdade e achava que finalmente poderia dar o primeiro passo para ser adulto: ter um emprego. A associação tinha sido feita presenciando por anos os pais workaholics. Aquilo que os ocupava por tanto tempo parecia dar-lhes algum prazer, e eu também queria. Felizmente, apenas a matrícula num curso superior já era suficiente para conseguir um estágio numa agência de publicidade. E impressionar aqueles senhores que ainda se acostumavam aos computadores era simples para qualquer espécie da geração Y. Meia dúzia de atalhos do Photoshop decorados somados à incrível habilidade de digitar sem olhar para o teclado e eu já estava apto a trabalhar no pior horário do dia: 17 horas, quando todos os clientes se lembravam de que tinham prazos e os veículos reforçavam que esses prazos já estavam acabando.

E é claro que incêndios não poderiam ser apagados sem a devida supervisão dos donos da agência, figuras lendárias da publicidade cearense conhecidas por seus infinitos cigarros e excentricidades. A sócia era a figura mais presente em nossa sala. Seu porte físico colossal casava perfeitamente com sua voz turbulenta e carisma avassalador. Por vezes, plantava-se atrás de minha cadeira como um monumento egípcio e conduzia meu trabalho com a habilidade de um flanelinha do centro da cidade, cuspindo (literalmente) jargões que ela própria criava e que nós ajudávamos a disseminar. Um dia, entre respingos de saliva e vultos de gestos bruscos que surgiam entre o monitor e minha vista, eu tentava finalizar um trabalho que já se estendia pela noite de sexta-feira quando senti o inesperado peso de uma mão no ombro.
— Meu amor! — O erre vibrava como um diapasão. — Quantos anos você tem?
— Dezessete.
— 17 anos e está aqui até essa hora ouvindo meus gritos? Você é doido? Vá comer buceta, rapaz!
“Adultos trabalham, mas nem tanto.”

Tinha 25 anos. Acreditava já ser gente grande e abraçava com força todas as responsabilidades possíveis encontradas no caminho. Acordava cedo, fazia a barba, batia ponto, reclamava do trabalho, engolia a comida, dava ordens, negociava prazos, lidava com clientes, aturava grosserias, contraía doenças, brigava no trânsito, entrava em pânico. Era um homem. A mistura da obrigação de um emprego fixo com a aventura do empreendedorismo e o experimento como professor universitário pareciam ser a fórmula para me tornar o que eu queria ser. Só não sabia o que era ser o que eu queria. Em pouco tempo, tudo passou a ser irritante. Acordar cedo era um tormento e dormir era meu único objetivo para passar o dia. A cidade, as pessoas, o clima… O mundo parecia tentar me expulsar dele e não encontrava em mim sequer alguma resistência. Os empregos se foram, a empresa fechou, as aulas acabaram e eu fui embora. Não do mundo, mas da cidade. Para o mundo, ainda busco alternativa. “…”

Tenho trinta anos. Assim mesmo, por extenso. E achei que deveria cumprir uma “tradição” recém criada por mim ao chegar nessa hora. Como meu pai fez na época dele, resolvi fazer na minha: li A Idade Da Razão, de Jean-Paul Sartre, e escrevi este texto. Encontrei-me na obra inteira. Na negação do manual social do protagonista Mathieu, na inconsequência tardiamente infantil de Boris, na angústia vazia de Ivich, na sensação de tempo perdido de Lola e no desprezo gratuito e nem sempre velado de Daniel. Tornei-me um livro. Percebi que havia sonhado com o que seria, sido o que queria, e descoberto o que não quero. E não quero ser o mesmo. Não quero a burrice juvenil que ainda me contamina, o descontrole emocional dos que pouco viveram, o idealismo intelectual meramente esportivo. Não quero mais precisar. Também não quero mais o despropósito das obrigações adultas, o encarceramento diário de prazeres, as tantas regras para colocar tudo nas caixas que me entregaram. Não quero mais pretender ou parecer. Quero ser. E ser velho me soa bem. O velho circulou por ideologias, balançou várias bandeiras, conheceu tipos e não-tipos, misturou tudo e escolheu o que lhe servia. Desistiu de caminhos, escolheu as lutas que valem o esforço, aceitou as marcas na pele e encontrou seu lugar e sua companhia. Talvez volte à superestimada juventude quando a razão partir, arrancada por um filho que espero ter, por mudanças que ainda espero fazer, ou por sensações que nem imagino sentir. A idade da razão já me rodeava. Só espero fazer jus a ela.

Amigo não se escolhe

Em pouco tempo, já estava íntimo da solidão. Divertia-me contemplando a beleza despercebida da cidade, ouvindo as frases soltas declaradas com tanta efusão ou deixando minhas lágrimas correrem sem timidez no cinema. Para espairecer, brincava de decifrar a personalidade dos passantes pela disposição dos traços retos em seus rostos. Não sabia se acertava algo sobre eles, mas gostava da sensação de desvendar tudo o que era possível no novo ambiente.

Mas, de vez em quando, algum detalhe ativava uma lembrança. Alguém magro e com uma barba esquisita, por exemplo, era idêntico a um grande amigo de infância, outro com óculos de aro grosso e andar apressado me lembrava um amigo designer, já aquele com cara de John Lennon se parecia mais com um amigo professor do que com o próprio Beatle. Uma expressão ouvida por acaso, uma peça de roupa familiar, um corte de cabelo diferente, gestos, trejeitos, vozes, meros detalhes percebidos em desconhecidos e que possuíam sempre alguma característica em comum com gente que agora estava longe. E por mais entretido que eu estivesse com tantas novidades, esse pessoal estava me fazendo uma falta tremenda.

Então, passar despercebido tinha perdido a graça. As amizades recentes ainda eram superficiais demais e eu tinha pressa para me sentir em casa. Logo, decidi escrever para quem eu queria como amigo.

Selecionei pessoas com as quais gostava de conversar, quem eu considerava interessante e que eu desejaria encontrar mais vezes — ou alguma vez, no caso das conhecidas apenas pela internet — e fiz um e-mail para cada uma. Escrevi sobre o quanto suas companhias me agradavam, sobre locais que com certeza iriam gostar e procurei saber da disposição para ir a algum desses lugares e jogar conversa fora. Sabia do possível ridículo, mas tentei transpor em palavras a mesma sinceridade que eu esperaria de alguém que gosto. Porém, a única resposta que recebi ficou na promessa.

Desisti de insistir e voltei ao estado inicial. Não tinha sido a primeira das minhas frustrações e nem seria a última. Felizmente, já havia aprendido a lidar melhor com isso.

Até que, saindo de um mercado, vi um rosto familiar. Essa sensação não era novidade, porém, dessa vez era alguém conhecido de fato! Fiquei abismado não só pela raridade que era encontrar alguém conhecido na rua, como também pela simpatia com a qual fui tratado. Um “vamos marcar” concretizado depois me garantiu a amizade de um dos casais mais incríveis do Rio, além de minhas primeiras aulas de culinária.

E oportunidades como essa continuaram a surgir com os tipos mais diferentes de pessoas. Como uma mesa de poker na casa de um webdesigner incapaz de seguir regras e fonte inesgotável de frases geniais, aulas de desenho (que nunca levei adiante) com o ilustrador mais talentoso e mais gente boa que existe, partidas de basquete com um DJ-triatleta-programador incrivelmente inteligente e com quem tenho uma dívida eterna pelas inúmeras vezes que já me ajudou no Rio, sem contar os bares com o grupo de “imigrantes” com quem tenho uma afinidade óbvia e os papos eternos sobre assuntos tão interessantes quanto inúteis na hora do almoço com os colegas do trabalho.

O tempo passou, e as adversidades da mudança também. Se em outro momento forcei a barra escolhendo meus amigos, agora vejo que não era bem uma questão de escolha. Posso não saber a razão, se é que existe alguma, mas o fato é que nunca imaginei que parar de insistir iria me garantir justamente o que eu tanto queria.

Pensando demais

“Então, esse é o seu filho?” — E me estendeu a mão. Para que ela foi fazer isso?

Um programa de televisão que estava assistindo à tarde havia me ensinado como cumprimentar pessoas. Parecia fácil. Parado diante de alguém a quem devo educação, era só estender a mão oposta à oferecida, encaixar o espaço entre o polegar e o indicador no mesmo local da mão alheia e subir e descer o braço não mais que uma vez. A apresentadora deixou claro que duas vezes seria demais.

Não sei bem porque eu estava assistindo a isso. Imagino que seja pelo fato da minha vida de recém adolescente me garantir muito tempo livre. E de fato não tinha muito o que fazer depois de chegar da escola. Estudar em casa não era meu forte, gostava de assistir aula. Além disso, dever de casa é para os fracos.

Ela continuava com o braço esticado apontado em minha direção. Percebi o quanto a televisão mascarava a vida real. A primeira pessoa do dia que resolveu apertar minha mão não se deu ao trabalho sequer de levantar da cadeira do bar e se posicionar à minha frente. O cotidiano era cruel e criava situações pitorescas como essa. E se tinha que ter jogo de cintura para sair de situações assim.

Eu sempre quis usar essa palavra: pitoresca. Ri com o canto da boca quando a li pela primeira vez num livro d’Os Karas. Pedro Bandeira era o autor. Acho que sim. Achei ela engraçada, não sei por quê. Pi-to-res-ca.

Ela levantou uma sobrancelha e uma gota de suor escorreu pelo meu rosto. Os outros quatro alunos de meu pai, que a acompanhavam, franziam a testa e mantinham um sorriso sem mostrar os dentes. Eu precisava fazer alguma coisa. Mas qual mão eu deveria usar? As chances de acertar eram as mesmas de errar, não dá para escolher assim tão fácil.

Ela estava perpendicular à mim, com o braço direito apoiado na cadeira ao lado e a palma da mão exposta levemente inclinada. Meu pai, ao meu lado, apertava meu ombro com carinho, mas aumentava devagar a pressão. Tirei as mãos dos bolsos e ameacei um movimento com o lado direito. Mudei de idéia no caminho e voltei atrás para pensar melhor.

Eu morria de medo de fazer papel de idiota a qualquer hora. Principalmente diante de adultos. Isso me garantia uma timidez digna de pena. Porém, tinha lido numa revista da minha irmã que meninas gostavam de caras tímidos, pois pareciam misteriosos. A julgar pelo número de pretendentes, elas estavam mentindo descaradamente. O que diriam ao saber que o maior mistério da minha vida era saber como cumprimentar alguém sem parecer um “sem jeito”?

Ela sacudiu a mão como quem tenta dar corda num brinquedo parado. O coração se debatia em meu peito de tão nervoso que estava por mim. Senti suar a mão esquerda e encarei como uma dica do meu corpo para a minha dúvida. Fiz minha aposta. Estiquei o braço esquerdo, apertei sua mão, subi e desci o braço não mais que uma vez. Duas vezes seria demais, né?

“É a outra.” — Ela falou baixinho. Troquei as mãos sem ninguém perceber.

Uma mulher singular

Algumas vezes somos pegos completamente desprevinidos e acabamos por conhecer alguém incrível de verdade. Não há como se preparar para esse momento, pois essas pessoas, além de raras, não são óbvias. Por mais que desconfiemos quando o resto do mundo começa a perder o foco quando as olhamos, não há como evitar de nos tornarmos reféns de seus encantos em poucos minutos de conversa.

E ela é assim. Sorriso fácil e extasiante, uma conversa inteligente cadenciada por uma voz suave, gostosa de ouvir, e um charme escancarado por seus grandes olhos. Era difícil não se apaixonar por ela. E por mais que eu tenha resistido, não poderia teimar por muito mais tempo.

Resistir parecia estúpido diante do inevitável arrebatamento — eu sei —, mas o problema de ser autocrítico é saber quais erros você é capaz de cometer. Logo, não poderia deixá-la cair nas mãos de um desastrado amoroso qualquer, mesmo esse sendo eu.

E quando, por um tropeço, deixei seu coração escapar por entre meus dedos, ela se mostrou única. Catou-o do chão, tirou a poeira, procurou por algum dano maior e me devolveu. Com um gesto, recuperou meu equilíbrio e me mostrou que posso ser alguém melhor. Melhor amigo, melhor namorado, melhor ser humano…

Ela, incrível, tratou-me como igual. E trouxe sentido novamente a um cotidiano sem forma. Tornei-me, por ela, uma nova pessoa, com uma enorme responsabilidade. A de tornar na mulher mais feliz do mundo aquela que me fez acreditar ser eu o melhor homem para isso.

Mudanças por aqui

O Autocrítica ganhou presente de aniversário!

Agora o blog tem uma cara personalizada criada pelo Jorge Ferreira, que trabalhou comigo na minha época de empresário e hoje me enche de orgulho.

Ainda estamos em fase de testes, portanto, se encontrar algum erro pode me avisar, ok?

Espero que gostem. E aguardem textos mais frequêntes!

Abraços.