Um passeio pela terrinha e pelas lembranças

Assumo que tenho uma relação esquisita com minha terra natal, Fortaleza. Eu não me identifico com a cidade. É como se eu não pertencesse àquele espaço. Mas por 26 anos ela foi minha morada e é impossível negar as várias lembranças de cada rua percorrida.

O natal seria dividido entre meus pais, por isso precisaria percorrer boa parte da cidade para vê-los. Saio do aeroporto com minha mãe em direção à Av. João Pessoa e a memória me traz lembranças recentes, mas longe de serem boas.

Cruzo a faculdade onde fui professor por 1 ano. Sinto o mesmo calafrio que sentia ao avistar o letreiro azulado. Tenho não mais que duas ou três boas lembranças daquele ambiente, pois foram os únicos momentos em que tratei e fui tratado como professor.

Felizmente esse mal estar passou logo. Chegamos à casa onde comemoraríamos o natal e, pra minha surpresa, era a mesma onde minha avó havia morado por um tempo. De repente, um mini Rafael translúcido de 6 anos passa correndo e pulando os degraus em direção ao quintal. Levava nas mãos um monte de papel picotado para mostrar aos pais os desenhos que havia pintado e recortado de uma revista. A irmã, ainda na fase de achar o máximo tudo que o irmão mais velho fazia, passou logo em seguida com seus cachinhos dourados e com a mesma euforia.

Dou um beijo de despedida em minha mãe, tios e primos e vou ao encontro de meu pai. Percorrendo as ruas desertas na madrugada de natal, povôo o vazio com fantasmas das minhas lembranças e imediatamente a Av. Treze de Maio ganha vida. Minha versão de 8 anos agora devora uma pizza com o pai — muçarela e com bastante maionese — enquanto espia o vendedor de rua exibir suas marionetes de pássaros de madeira. Ele voltaria pra casa empanzinado, mas ainda com espaço para uma bola do melhor sorvete da cidade até hoje e com disposição de ler, antes de dormir, pelo menos duas revistinhas compradas na banca da praça, em frente à locadora de videogame fechada. A pizzaria também já havia falido, mas não antes de ser o ambiente dos meus primeiros encontros com amigos virtuais do vídeo-papo 1402 aos 11 anos.

Antes de ser inundado com as lembranças do meu bairro de infância, o rádio começa a tocar Wonderwall e vejo minha adolescência em uma lanchonete na Av. Pontes Vieira. Não que tenha ido muito ali, mas jamais esqueci a garçonete nojenta, com um sinal peludo no braço, mascando um palito de dente e insistindo que eu havia pedido um hambúrguer e não um sanduíche de frango.

A interferência no rádio indicara que ali perto estava o grupo onde trabalhei por quase 3 anos durante a faculdade. Pouco antes de alugar uma sala comercial na Av. Sen. Virgílio Távora, bem em frente ao colégio católico onde fiz jardim 1 e 2 — no mesmo ano, por alguma tramóia que meu pai havia feito.

Sim, lembro de mim no jardim de infância. São poucos momentos, mas vívidos. O uniforme sujo de terra, a minha timidez infantilmente taciturna, o piso acimentado manchado com sangue de cotovelos, as letras acima da lousa e espalhadas pela sala, a capela onde fazíamos orações semanais (e que já não faziam sentido algum para mim desde cedo), o parquinho adornado para meu aniversário, a pipoqueira pegando fogo nesse mesmo dia, os livros do Monteiro Lobato no banco do carro da família…

Engraçado… O tempo parece me distanciar de mim mesmo. Não sou eu fazendo todas essas coisas, mas pedaços de mim que ficaram pelo caminho. No natal paterno, por exemplo, minha vida como “carioca” era o assunto na mesa. E por mais que eu tenha mudado, a memória ainda me transportava para esses momentos em vez de me apresentá-los como nos parágrafos anteriores. Imagino quando esse eu também ficará pelo caminho.

Na volta para casa — conceito dúbio na minha cabeça, atualmente —, fui recebido por um fantasma com sorriso largo e braços abertos. Segundos depois, sua imagem se dissipou no ar e o cartaz de bem-vindo ao Rio ganhou minha atenção. Não eram meus pais, familiares ou amigos me desejando boas-vindas. Era apenas o lar que eu havia escolhido para mim fazendo isso à sua maneira.

Respirei fundo e fechei os olhos lembrando de todos os “eus” que revi e jamais esqueci. Não haviam ido embora, estavam ali comigo o tempo todo. O lugar ao qual eu achava não pertencer agora pertence a mim. E vai me acompanhar sempre, não importa quantos de mim fiquem pelo caminho.

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11 comentários sobre “Um passeio pela terrinha e pelas lembranças

  1. Essa inversão de não pertencer a algo para o de algo lhe pertencer é uma característica bem patente do fechamento de um ciclo. Agora é dar lugar aos outros ciclos que virão, sem Fortaleza e com muito Rio. 😉
    Ótimo texto,Rafael.

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  2. Vagar pela infância sempre é um desafio… Talvez por nos mostrar (duramente) quem somos hoje e um pouco do que seremos amanhã. Cada pedacinho do que ficou para trás se reflete em atitudes de agora e muitas outras que virão!
    Parabéns pelo texto. 😉
    Bjos,
    Tati!

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  3. De quantos pedaços se faz um homem? Das faces recentes de um filho, dos restos passados de um pai, ou de cacos de si mesmo?
    Ao ver o pai, vejo um filho que fui e muitos que não consegui ser; ao ler o filho, vejo um pai que fui e outros tantos que gostaria de ter sido e não sei se um dia serei.
    Teimoso, continuo. Dos rastros deixados, fica um caminho, não necessariamente a ser seguido, mas, quem sabe, a ser lido e interpretado.
    E assim, sigo. Nos sonhos do pai, sonhos de pai e filho vão desenhando um futuro passado.

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  4. Interessante é que memória e lembrança, assim como o próprio passado, não é algo que nos é dado. É imposto! Antes de esperar por isso, você é roubado do momento que vc acredita estar vivendo para esbarrar em coisas vividas e significadas por um você que não existe mais! E esse outro você liga muito pouco pro atual.
    Bom é imaginar que o atual – apesar de querer – liga muito pouco pro você futuro!
    No meio das minhas próprias lembranças, a frase mais comum que escuto internamente é: Quem iria imaginar?!!!

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  5. eu sou de fortaleza, mas eu fiquei tão maravilhado com o layout do teu blog que nem lembro mais do que o post falava, só sei que você falou a 13 de maio e deu um beijo na sua avó, ou foi sua mãe. D:
    enfim, gostei MUITO daqui. favoritado desde ontem. ;D

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  6. aqueria comentar com uma pessoa qualquer que leu o teu texto, mas é impossível uma mãe se esconder quando está cheia de orgulho. Orgulho do texto (tão bem escrito); orgulho da personalidade(timidez fingida); orgulho do caráter. Chega. Todos saberão que é comentário de mãe, portanto a ele não de pode dar crédito. Que pena que Fortaleza não te envolve como envolve a mim. Se assim fosse, ainda estarias aqui, junto de mim.

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  7. Fantasmas? São muitos.
    Mas tu podes ainda
    com palavra na língua
    aquietá-los.

    Lúcidos? São poucos.
    Mas se farão milhares
    se à lucidez dos poucos
    te juntares.

    Raros? Teus preclaros amigos.
    E tu mesmo, raro.
    Se nas coisas que digo
    Acreditares.

    Adorei o texto! Incrível sua forma de expressão…
    Você tem talento Rafael… Estranho te chamar assim!! hehehe

    Parabéns…

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