Mulheres que amei e nunca esqueci

Tem mais ilustrações no final do texto, viu?

Entre as festas de final de ano em Fortaleza, minha mãe aproveitou minha presença na cidade para ajudá-la em sua mudança de apartamento. A ajuda incluía separar o que eu queria guardar das minhas coisas que ainda estavam por lá. E mexendo em meu antigo guarda-roupa, encontrei memorabílias dos amores que tive. Cartas, fotos, caixas ornadas e pequenos presentes estavam ali para atiçarem minha memória.

Com esses objetos na minha mente somados à uma conversa anterior, percebi que grandes decisões na minha vida foram tomadas influenciadas pelas mulheres que amei. Não sei exatamente se isso é bom ou ruim, mas a motivação é sempre óbvia.

Minha história com o sexo oposto começou mais ou menos na 1ª série. Pela primeira vez na vida, via uma menina com curiosidade, admiração e interesse. Lembro claramente dos meus músculos travarem enquanto via entrar na sala, em câmera lenta, aquela loirinha de cabelos ondulados longos, puxando a mochila num carrinho vermelho e uma lancheira a tiracolo.

Viviane — nunca cito nomes aqui, mas seria engraçado se ela lesse hoje este texto — era estudiosa, concentrada nas aulas e estava sempre acompanhada da melhor amiga, branquinha de cabelos negros lisos. E, óbvio, ela me ignorava completamente.

Aprendi a escrever por ela. Como eu queria chamar sua atenção de todas as formas, competíamos nas notas e a escrevia cartinhas com frequência. Minhas primeiras cartas de amor, para sempre tão ridículas. Ela rasgava todas dizendo que não tinha idade para aquilo. Nunca soube o que era o “aquilo”.

Cinco anos depois, conheci K. num réveillon em Mossoró. Com um sorriso fácil e um carisma indescritível, ela me fez sentir o que nunca havia sentido. Foi o meu primeiro amor, e eu o dela.

Aprendi inglês por ela. Nossa relação era como a de Chico Bento e Rosinha. Nunca nos beijamos e mal nos tocamos, mas queríamos ficar sempre juntos. Tanto que me matriculei no mesmo curso de inglês de sua irmã para facilitar nosso encontro, sempre tão temido pelo pai ciumento. Nos distanciamos meses depois, mas o carinho um pelo outro resistiu ao tempo — bem como a nova língua aprendida.

Meu primeiro amor significou muito pra mim, mas não me ajudou muito na perda da timidez. Isso só melhorou com minha primeira namorada. K.R. (não confundir com K.) estudava em meu antigo colégio e era a melhor aluna de minha tia. Com 14 anos, já falava em cursar Medicina e tratava as provas de colégio como seu primeiros obstáculos.

Aprendi a lutar por meus sonhos com ela. Numa época em que irresponsáveis como Renato Russo — que, ironicamente, ela adorava — cantavam o odio à química, aquela menina enfiava a cara nos livros sem deixar o namoro e a vida de lado. Quando a reencontrei recentemente, ela tinha conquistado tudo que queria e já almejava saltos maiores. Vi que ter foco e fazer certos sacrifícios podem, de fato, valer muito a pena. Posso sentir orgulho de minha ex?

Depois de uma 2ª namorada maluca que só me fez mal, encontrei P. no colégio. Nossas famílias eram amigas e começamos a nos falar depois de um curso de leitura dinâmica que fizemos juntos. Não aprendi nada, pois passava boa parte da aula olhando pra ela. Como alguém podia ser tão charmosa com 15 anos? Nos tornamos amigos, namorados e, depois, amigos de novo.

Aprendi com ela que só se vive uma vez. Minha primeira dose de álcool (tequila), minhas primeiras farras, nossa primeira vez e outros inúmeros momentos tornaram nossos 7 meses de namoro divertidos como nunca. P. tinha (ainda tem) um jeito gostoso de ver a vida e uma vontade de experimentar tudo que o mundo podia oferecer. E nada, NADA, parece conseguir derrubá-la.

Na inércia de curtir a vida, entrei para faculdade e conheci P.M. (quantos nomes parecidos…) em uma festa à fantasia. Ficamos temerosos de nos encontrar novamente, afinal, estávamos fantasiados! Felizmente éramos agradáveis aos nossos olhos mesmo sem fantasia e tive meu namoro mais longo: 4 anos.

Aprendi a ser adulto com ela. P.M. esteve comigo dos 17 aos 21 anos, praticamente meu período inteiro de faculdade. E é impressionante como se muda nessa fase. Feições, costumes, humor, corpo… Nós nos apoiávamos e nos adaptávamos às novidades como podíamos. E fomos muito bem sucedidos por bastante tempo. Mas quando nossos caminhos se apartaram, M. surgiu.

Conheci M. através de um amigo em comum, num momento de desespero. Seu computador havia “morrido” e levado sua monografia junto na véspera de entregá-la. Como bom nerd, fui resgatá-la. E fiz em duas horas o trabalho que poderia ter feito em 10 minutos. Meses depois, nosso interesse se confirmaria num reencontro inesperado, mas não necessariamente imprevisível.

Aprendi a tomar decisões com ela. Em pouco tempo de namoro, estávamos insatisfeitos profissionalmente e buscando uma solução para nós dois. Decidimos, então, montar uma empresa juntos. Mesmo diante da descrença alheia — “namorados trabalhando juntos não podem dar certo” — conseguimos nos tornar os melhores sócios que poderíamos ser. Mas nossas vidas mudaram, bem como nossos sonhos. Isso inviabilizou a empresa, mas não o carinho e respeito que sentíamos um pelo outro. Até que nos distanciamos, e nos encontrarmos em seguida como bons amigos.

Então, N. chegou virando a mesa com tudo isso em cima. Nossa relação provocou as maiores mudanças em minha breve vida, e ao fim fui impelido a questionar tudo o que achava saber e acreditava ser. Pouquíssimas respostas obtive até então, mas essas perguntas resultaram neste blog e são seu principal combustível.

Por que esquecê-las? Para quê? Quem foi a criatura que disse que “ex bom é ex morto” e ainda convenceu tanta gente por aí? Como alguém que você amou e com quem compartilhou os melhores momentos da sua vida deve agora se fingir de morto?

Por isso, não acredito em ex amores. Dá para ir além da pele, do beijo, do toque, da falta de fôlego e da taquicardia. O amor é outra coisa, como diria algum engraçadinho na internet. É querer ver a pessoa feliz, torcer por ela quando necessário, ajudá-la mesmo que indiretamente sempre que for oportuno, saber se afastar se assim for preciso e se aproximar com o respeito que todo alguém especial merece.

A dor não pode ser lembrança, não pode predominar. Ela deve passar e virar uma poeirinha no baú das memórias. Os bons momentos e o companheirismo, esses se mantêm em forma de cartas, presentes, caixas, fotos, e-mails… amor.

Meu amigo Thyagão se empolgou com meu texto e resolveu imaginar como as pessoas que citei seriam. Ele tem um traço estilo cartoon e eu adorei o resultado. O palhaço ainda vem falar comigo desse jeito:

Diz Douras, tudo certo? Olha, excelente texto. Pensei até fazer um também: Empregadas que amei e que nunca esqueci. hehehhehe… L. de Lindalva, S.de Suzete. hehehehe

Mas como texto não é comigo, resolvi desenhar essa série na mudrugada. Pode fazer qualquer coisa com os desenhos, inclusive me processar hehehe.

Confiram:

V. e K.
K.R. e P.
P.M. e M.
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30 comentários sobre “Mulheres que amei e nunca esqueci

  1. Histórias legais para você compartilhar, ver o lado bom dos amores passados é um ótimo exercício.
    Eu tento sempre manter uma boa relação de amizade pós-namoro, não imediatamente, mas com o passar do tempo.
    Lembro de uma ex que depois veio me contar o quanto estava apaixonada pelo carinha da faculdade, com o qual agora está morando junto. Fiquei muito feliz por ela, e me empolguei com o jeitinho “menininha apaixonada” que ela estava pro lado dele.
    Há duas semanas, outra ex veio me pedir permissão para tentar algo com um primo meu. Ri da situação e apoiei, afinal só imagino que eles viverão bons momentos.
    Não dá pra manter uma mágoa por tempo indeterminado, o melhor é buscar ao menos a convivência pacífica. O que vier a mais é lucro.

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  2. É interessante como há leituras que nos remetem a passados adormecidos. Ler o Rafael reacende em mim algumas chamas. Não do pai, mas do homem. A coragem e naturalidade com que fala das mulheres que amou me faz viajar por histórias mil. E nestas viagens, percebo o quanto é bom poder amar e experimentar esse amor com a ciência de que é algo seu, só seu, que não passa, não se apaga. Pode até adormecer, mas eventualmente acorda na cor de uma rosa, na harmonia de uma música, no brilho de um luar, na rima de um poema. Amores vividos, quando vividos, não se vão, nos seguem vida afora, nos ensinam a viver intensamente cada momento. E isto é bom.
    Meu caro Rafael, obrigado por ser assim, simples e franco. Te amo.

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  3. É tão bom poder acompanhar a mudança em uma pessoa. Não te conheço há muito tempo, mas já tive o prazer de estar presente em duas fases da sua vida e agradeço que por meio desse lindo texto eu possa ter te conhecido um pouquinho mais.

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  4. Adorei o post! Engraçado q tbm fui obrigada a eliminar parte das minhas coisas dos armários e gavetas e tbm tive um reencontro com o passado. Rasguei algumas fotos de alguns com pouca importância na minha vida, resgatei cartinhas que o Marcelo me mandou qnd estava em Portugal, relembrei o tempo em que algumas amizades eram mais fortes…tudo registrado em cartinhas, montagens com fotos….
    Também acho que ex-amores são para serem guardados não no fundo do baú, mas no fundo do coração, pois com certeza eles são responsáveis por aquilo que nos tornamos….e, de um modo geral, sempre nos tornamos pessoas melhores com eles….

    Não demore tanto para escrever, félio. Gosto das suas reflexões….me inspiram para que eu tenha as minhas….

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  5. Com poucos “ex” na vida, guardo com carinho a lembrança daquele que foi mais importante, o primeiro. E trato com mais carinho ainda a nossa nova relação, a de amizade (que só foi possível 4 anos depois do término)! Dos outros, me trouxeram só a certeza de que escolhi o caminho certo de ter casado cedo, por ter encontrado em um só, tudo o que nenhum outro me deu! =)

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  6. Delicioso poder acompanhar como você cresceu e amadureceu através dos seus relacionamentos. Acho bonito essa ideia de guardar e relembrar antigos amores.

    Só não acredito que funcione para todas as pessoas. Eu particularmente não devo ter tido boas experiências com antigos namorados por que faço questão de não me lembrar.

    Provavelmente o lado que fica mais ferido ou magoado quando se termina uma relação deve pensar diferente de você. Se todo mundo entendesse que relacionamentos são trocas e não posses, são doações e não exigências, seria possível que quando o amor mudasse ou a paixão apagasse, de simplismente seguir adiante e só desejar o bem daquela pessoa que foi importante em sua vida.

    Siga escrevendo e abrindo seu coração! Me faz bem saber que alguém tem coragem de mostrar ao mundo tanta sabedoria e amor.

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  7. ô corralinda! hehehehe
    Eu concordo plenamente com você e com a Leleu! Crescemos com nossos ex, amadurecemos juntos e o que fica no fim de tudo (no lugar das possíveis mágoas costumeiras nas pessoas pequenas de espírito) são muitas boas lembranças, um carinho enorme e por que não uma amizade sólida?
    Nos conhecemos bem, somos os mais indicados na hora dos conselhos por sabermos dos defeitos e fraquesas do outro…
    Às vezes pode demorar um pouco, Rafa. Mas o amor não morre, ele só muda de forma! Só que isso não acontece da noite para o dia, pq se fosse assim nós todos correríamos sérios riscos!

    bjocas!

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  8. Acho interessante a capacidade de olhar para ‘essas mulheres’ ( e tirar um aprendizado de cada uma lembrando ou analisando) que construíram a sua história e reconhecer que você teve relacionamentos que obtiveram sucesso. Por um tempo foram felizes juntos e amadureceram. Realmente, não se pode deixar de sentir um carinho, um amor por pessoas que colaboraram para o que você é hoje. Eu mantenho um carinho pelos homens que amei (e ainda amo) e acho saudável porque não gostaria de perdê-los. Não se trata mais de um amor entre um homem e uma mulher, se trata de um amor de reconhecimento, da importância que tiveram para mim.

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  9. É bem verdade que cada pessoa que amamos tem papel fundamental em quem vamos nos tornando ao longo do tempo – e isso é extensível aos nossos amigos, familiares, não fica só no âmbito dos amantes.
    É interessante perceber o quanto a nossa autobiografia, de repente, depende do que fazemos buscando a felicidade – que, na maioria das vezes, não se encontra estando sozinho.
    Refleti sobre várias coisas lendo esse seu post, me fez fazer uma viagem autobiográfica e uma autocrítica (Ó! O nome do blog :P).
    Obrigada por isso, belo texto, meu amigo.
    Beijos!

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  10. Muito bom este texto, e que bom que tem pessoas que pensam assim, porque é tão bom lembrar das coisas boas que vivemos e nossos amores passados deixaram pra nós.
    Também acho que ex bom é ex morto, uma grande bobagem. Bom é ter ex que vale a pena lembrar e que nos ensinou coisas boas e fez de nós alguém melhor.
    Abraços

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  11. Adorei o texto, como sempre..
    Mas esse teve trechos que me ajudaram a refletir mais sobre o momento pelo qual vou passar..tenho q me afastar de pessoas q amo muito, e isso ta mexendo muito comigo, me deixando cada vez mais sensível…
    Gostei muito do seguinte trecho:

    K.R. ->Quando a reencontrei recentemente, ela tinha conquistado tudo que queria e já almejava saltos maiores. Vi que ter foco e fazer certos sacrifícios podem, de fato, valer muito a pena.(Isso me confortou, pois apesar de estar longe de quem amo, estou em busk do meu futuro, e pra isso tive que “abrir mão” de estar perto de pessoas que me fazem muito bem)..

    Nunca deixe de post essas coisas, pois só agora percebi que ajudam muitas pessoas..

    P.S.: A #autocritica ta bombando, vários fãs agora.. Adoreiii..
    Mas a primeira sou eu .. kkkkkkkkkkkk
    =D

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  12. Definitivamente vou me transformar em uma leitora assídua para, assim, acompanhar seu crescimento, emocionando-me com suas memórias, com seus textos, seus comportamentos e seus (inevitáveis) ensinamentos. Parabéns.

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  13. Histórias do Rafael estão ficando afamadas. Rs. Fazia tempo que não pintava por aqui. Emocionante teu texto e a homenagem do teu amigo por meio dos desenhos é sinal de que tuas palavras tocam e, de alguma forma, inspiram aqueles que lêem. Vida longa às “narrativas do eu” e aos desenhos que tornam singular a vida de cada um de nós!

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  14. Tirando a menina da primeira série, conheci todas as outras! 😀 Os desenhos estão muito bons, mas não condizem com a realidade. 😛

    Porra, macho! Tu nunca vai escrever da gente não? Eu, Py, Ju, LEZ, Pet, Tatu, Juza, Picanha, basquete e o GEO, claro! Dá um texto do caralho! Quero ver se o brother desenhista desenha a gente!

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