O que não ficou para trás

» Leia o prólogo antes, por favor.

Após algumas trocas de mensagens via Twitter, o inevitável ocorreu: precisávamos um do outro. Horas e horas de papo online logo me mostraram o quanto ela era muito mais interessante do que sua mini bio dizia. “Carioca, advogada, funkeira e flamenguista” era uma descrição tão rasa que soava quase absurda.

E de tanto nos falarmos, viramos os melhores amigos “virtuais” que poderíamos ter. Virtuais, pois como poderíamos nos sentir tão próximos de alguém que nunca havíamos tocado ou abraçado? Meio absurdo, mesmo hoje em dia, sentir saudades de quem só se mostrava em forma de bytes e pixels. Inexplicável, pensávamos, mas também era totalmente irresistível.

Trocávamos segredos, confissões e carinho. Sabíamos tudo um do outro, das maiores qualidades e alegrias às piores dores e defeitos. Até que transformamos um acontecimento ruim para mim numa ótima oportunidade para ambos. Finalmente iríamos sair do monitor e nos encontrarmos. 73 dias seria a primeira de tantas outras contagens regressivas.

Conheci no mesmo dia a cidade e a mulher maravilhosa. Nossa ligação foi tão forte que não conseguíamos tirar as mãos um do outro desde o primeiro abraço. No carro, dedos entrelaçados e palavras sussuradas de carinho durante todo o percurso até em casa. Eu me esforçava em dar atenção aos seus pais, que não continham a curiosidade a meu respeito, mas mal percebia que existia um mundo além daqueles olhos verdes.

Por dias fingimos ser apenas bons amigos. Queríamos ser discretos e até cautelosos enquanto ríamos da desconfiança de todos. “Como podem ser só amigos se estão sempre trocando carinho?” — sua mãe perguntava. Não éramos muito bons no disfarce, confesso.

Também fingi para mim mesmo que não estava apaixonado desde o aeroporto. Mas uma noite na Lapa destruiu qualquer resistência minha. “Se eu morasse no Rio, você namoraria comigo?” — perguntei. Ela disse que sim! Minha vida havia ganho um novo objetivo, e eu iria cumprí-lo a qualquer custo.

Sabíamos que namorar à distância não seria fácil, mas também sabíamos que o sacrifício tinha data para acabar. Prometi que em exatamente um ano estaríamos morando na mesma cidade. Até lá, tínhamos o mundo um do outro a explorar.

Abrimos nossas vidas para visita e nós mesmos seríamos os guias. Por um ano, fizemos malabarismos com nosso orçamento e tempo para nos vermos cerca de uma vez por mês. Assim, conhecíamos cada fragmento de nossa cidade natal e de nosso estilo de vida.

Ela, uma apaixonada por praias, se encantava com Porto das Dunas, Beach Park, Canoa Quebrada e Praia do Futuro. Eu, um deslumbrado pelo Rio, adorava conhecer seus vários cinemas, os bares e botequins sempre tão convidativos, os passeios de bicicleta na praia… Achava (acho) a vida no Rio muito charmosa e me sentia parte da vida dela a cada novo lugar que conhecíamos. O curioso é que acompanhando-a nos passeios, eu tentava ver minha cidade com outros olhos e descobri coisas que gostava e nem lembrava.

Assim, íamos percebendo que, apesar de difícil, existiam muitas coisas boas em um namoro à distância. Chego a suar frio só de lembrar o quanto ficava ansioso esperando ela sair pelo portão de desembarque do aeroporto. Cada reencontro nosso era uma sensação de euforia misturada com alívio que poucas vezes senti na vida. Alívio daquela pessoa existir e ser o mundo pra mim, e euforia por tudo que ainda faríamos juntos.

Quando o final do ano se aproximou, era hora de cumprir minha promessa: comprei minha passagem só de ida. Nunca vou esquecer do comentário dela no Twitter. “Hoje é o dia mais feliz da minha vida.” Já o meu, foi ser recebido de braços abertos por ela em sua cidade. Tudo aquilo que sonhei o ano inteiro finalmente estava prestes a acontecer.

Revivendo alguns momentos, lembro como era gostosa nossa convivência. Tão fácil, tão simples, tão próxima… Minha mãe até dizia admirar a ligação que a gente tinha. “Acho que nunca te vi tão à vontade com alguém.”

Mas ela tornava isso simples. A forma como me olhava de longe quando eu tentava me socializar com seus amigos, como sempre acertava tudo que eu gostava, como tinha paciência de me ajudar a comprar roupas recebendo as fotos por mms, como reduzíamos a distância que nos separava demonstrando carinho a todo momento, como me recebeu (e me aguentou) na casa de sua família enquanto eu procurava um lugar para mim, como me ajudou a comprar e organizar as primeiras coisas para o novo apartamento…

Não posso guardar mágoas de alguém assim. Quero essa boas lembranças para sempre. E quero ter outras histórias como essa para contar. Mudaria apenas o final.

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15 comentários sobre “O que não ficou para trás

  1. Como guardar mágoas de alguém que continua trazendo o melhor de você? Seus textos sobre são sempre os melhores, os que fazem arrepiar e sentir saudade junto. A felicidade te espera, Rafa. Esteja pronto. Beijo queridão.

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  2. Meu camarada, você é um verdadeiro poeta. Bom com textos e algorítimos, sua sinceridade e franqueza são de impressionar qualquer um, todo ser humano deveria ter um pouco.

    E sempre podemos mudar o final.

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  3. Eu me garantia nos disfarces… tu podia ter me pedido umas dicas, vacilou! 😀
    Esse lance de guardar mágoas num vale a pena mermo não. Faz mal e até adoece!

    #eunãochorei 😛

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  4. Bonito relato. Não tem como não se identificar. Acho que todos já passamos por um fim traumático de relacionamento e é fácil se ver em suas palavras que, embora sejam tão particulares sobre o caso de vocês, tb dizem muito sobre o que todos nós passamos vez por outra.

    Olha, eu estava conversando sobre algo parecido com meu namorado, ontem. Estava falando que, depois de um tempo, a gente passa a não sentir mais mágoa daquela pessoa que nos fez tão mal, mas sim lembrar das coisas boas que a gente viveu juntos. Acho que isso nos ajuda a amadurecer e é um bom sinal de que superamos de vez a história.

    No meu caso, namorei dois anos com um colega de faculdade, que depois me magoou muito. Mas se passei dois anos com ele, bom, algo de bom ele teve, né? Hoje lembro mais das coisas legais, uma nostalgia – não voltaria atrás, mas vejo os benefícios do namoro com ele, pq afinal cresci muito com a convivência e aprendi muito sobre mim mesma. Ele fez parte do meu caminho. Mas tb foi um certo trauma, pois fiquei mais de quatro anos sem namorar depois disso. Como diz uma música brega do Jorge Vercilo “… Os meus amores de antes/ Todos tornaram-se pontes/ Pra que eu chegasse a você”. E vejo assim – que aquele cara que tanto me magoou ajudou a formar quem eu sou hj.

    Parabéns pela coragem de se abrir.
    Um beijo.

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  5. Depois de ler o prólogo e esse post, primeiro chorei!
    Depois fiquei pensativa sobre uma situação semelhante… pensando numa maneira de contornar tudo e não ser tão rancorosa!
    Como é difícil!(Falando por mim,claro! :D)
    Mas desde o ínicio do blog gosto muito dos seus textos e por tudo que já foi escrito só tenho a dizer que você tem meu respeito e admiração!
    Boa sorte, torço pra que você fique bem!
    Beijos, Lu

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  6. acho que o mais difícil de todo relacionamento (e o fim deles) é conseguir separar o que foi bom ou ruim, e saber o que vale a pena ou não guardar. por um tempo até é ok, mas depois a gente percebe guardar mágoa sufoca e dói demais. e não que seja fácil conseguir isso… mas tái uma prova que vale a pena tentar.

    (ps.: é a primeira vez que comento aqui, mas gosto muito dos seus textos. parabéns!)

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  7. Se você faz do tempo seu aliado, conclusões como essa acontecem mais cedo do que você achava que iria acontecer. E não se pode negar o direito de sentir raiva, o luto também é necessário. Melhor mesmo é chegar a conclusão que se relacionou com uma pessoa admiravel e ter orgulho disso. Se ficaram coisas boas e foi possível reconhecer o quanto ela era especial, é pq tudo valeu a pena. E aí, mais uma vez, é hora de se aliar ao tempo e esperar, com calma, chegar o próxima etapa.

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