Bem (Mesmo) Sozinho

Hora de transformar meros conhecidos em grandes amigos. Esse foi um dos primeiros conselhos que recebi quando me vi sozinho no Rio de Janeiro. Mas nunca imaginei que fazer amigos depois de “velho” em minha nova cidade seria tão difícil.

Lembro que fazer novas amizades na infância era muito simples. Trocava socos com alguém no recreio, chutava a bola para o terreno vizinho, nos apaixonávamos pela mesma menina e, como se tudo isso fosse motivo, nos tornávamos melhores amigos. Mesmo 15 anos depois, continuamos assim, sem sequer lembrar a origem da amizade.

Aprendi com eles a fazer amigos para sempre. Não importa se uns ficaram ricos ou pobres, se casaram ou separaram, se mudaram de país ou de rua, ou se brigamos com ou sem motivo. Nossa cumplicidade deve se manter inabalável.

Na minha mudança para o Rio de Janeiro, fui muito bem recebido pelos amigos de minha… anfitriã. Eram pessoas simpáticas, extremamente inteligentes e admiráveis. Combinavam com ela e, consequentemente, me identifiquei com muitos deles. Mesmo sendo normalmente referenciado como “namorado de N.” (cargo que eu gostava de ocupar), sempre era tratado com simpatia e respeito. Até desocupar o cargo.

Depois disso, muitos se afastaram e eu me afastei de outros — os mais próximos a ela, por uma questão de sanidade. Ainda tentei manter contato com quem conversava mais, mas para alguns o respeito não era mais necessário ou apenas não tínhamos mais “assunto”. Eram amigos dela, não meus. E apesar das decepções, conheci quem valia a pena. Ainda assim, tinha um longo caminho para uma grande amizade.

Desde então, passei a desbravar novos ambientes e conhecer gente diferente. O dia a dia de trabalho, cursos breves de coisas que me interessavam e muita conversa pela internet me apresentaram pessoas com as quais me identificava. Logo, agora era sair algumas vezes para programas diferentes, jogar muita conversa fora para confirmar a afinidade inicial e, assim, sermos amigos, correto? Nem tanto.

Convites são ignorados, mensagens ficam sem resposta, pessoas somem, o “vamos marcar” nunca chega, pequenas mentiras são ditas, saudades são menosprezadas, imprevistos acontecem, agendas conflitam, tudo atrapalha. E o carinho que eu sentia por cada pessoa vai murchando. Enquanto a sensação de vazio vai crescendo.

E se eu precisar de alguém? Se adoecer ou acontecer um acidente? Se eu quiser comemorar algo, quem eu chamo? Se estiver triste e precisar de apoio? Em quem poderei confiar?

Identifico em certas pessoas as respostas para algumas dessas perguntas — sendo até surpreendido às vezes. Por isso, deposito nelas, mesmo com certo medo do que já foi vivido, minha confiança e meu carinho. E espero que o tempo apague meu medo e só nos torne mais próximos.

Portanto… Ei, você aí com quem eu falo de vez em quando e pergunto como está. Realmente gostaria de saber como está.
Você que convido para o cinema, teatro ou para tomar um chopp. Passei em frente a um local que vai gostar de conhecer. Vamos juntos?
Você que ganhou presente meu fora de qualquer ocasião só porque eu tinha certeza de que iria gostar. Bem que acertei, não foi?
Você que eu não vejo há meses. Eu sinto sua falta.
Você que mora na mesma cidade que eu, mas só nos falamos online. Eu gosto de você assim mesmo, mas acho que vou gostar mais se te der um abraço.
Você que sumiu. Apareça de novo, por favor. Não costumo esquecer meus amigos.

Eu me recuso a acreditar em quem fala que há um limite de idade para se fazer novos amigos. E também sei que preciso estar bem comigo, mesmo sozinho. Mas qual a graça de estar bem se não tiver ninguém para contar como estou?

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