O Estrangeiro

O estrangeiro é como um alienígena de sitcom. Chegou a um planeta completamente desconhecido e tenta se mesclar aos terráqueos estudando o comportamento deles. Por quê? Para uma posterior invasão alienígena, quem sabe? O importante é que o E.T. aqui faz uma besteira atrás da outra tentando se adaptar ao novo mundo.

Primeiro, o estrangeiro acha que os nativos não fazem sentido. Ele não compreende como machos e fêmeas da espécie passam o tempo reclamando de si, sem nenhum dos lados escutar o outro. Também não entende que deixar de seguir no Twitter é como perder um amigo, mas desejar feliz aniversário pela rede é impessoal demais. Aliás, por que essa mania de segregação dos nativos? Zona urbana, moradia, estado civil, condição financeira, tudo é motivo para se fechar em grupos exclusivos. Além disso, como conseguem tanta disposição para brigas e discussões morando num mundo tão bonito e atraente a tantos alienígenas como ele por aí?

Bom, convenhamos, o estrangeiro também é estranho — como a etimilogia sugere. Para começar, vive se enrolando com tantas novas convenções sociais. E nem sempre acerta na combinação roupa/clima/ambiente. Também possui um senso de humor esquisito de autoflagelação e ironia pouco óbvias, incomum fora de seu planeta. Até mesmo a forma como fala confunde qualquer interlocutor nativo, com seu vocabulário próprio e pouco (ou excesso de) tato na postura.

Isso acaba fazendo com qum o estrangeiro também se sinta um pouco solitário. Não por falta de amigos — ele se beneficia da empatia dos nativos —, mas seus muitos medos, como o de ser inconveniente ou chato, tornam suas anteninhas de vinil e pele esverdeada difíceis de disfarçar. Ele sabe que uma coincidência evolutiva o fez biologicamente semelhante aos seus anfitriões, mas isso não o torna necessariamente um membro da espécie, como achou ser possível.

Não que isso faça muita diferença em sua cabeça. Tanto que o estrangeiro adora tirar onda de “estrangeiro” quando volta à sua terra. Imita os trejeitos e o palavreado do planeta hospedeiro tentando, em vão, enganar seus conterrâneos, só de sacanagem. Percebe-se que noção do ridículo não é uma de suas maiores habilidades.

A verdade é que o estrangeiro cometeu um erro. Ele ignorou seu guia (de mochileiro das galáxias) e se apaixonou perdidamente pelo seu novo mundo. O estilo de vida, as diferentes estações do ano, a geografia, o jeito engraçado e confiante dos nativos, as possibilidades que o planeta apresentou…

E tudo que ele mais quer na vida agora é ser feliz no mundo que ele descobriu. Mas, até nisso ele consegue se enrolar. Afinal, ser feliz não é o que todo mundo quer?

Anúncios