E se…

E se todos os planos que fiz tivessem dado certo? Se eu tivesse passado no vestibular para informática, não para publicidade. Se tivesse feito faculdade em Campinas, não em Fortaleza. Se tivesse aprendido todas as línguas que um dia quis. Seria um nerd esquisito falando mandarim e puxando o erre. Esse seria eu?

E se tudo tivesse dado errado? Se eu não fosse formado até hoje, teria inventado algo para ganhar dinheiro. Estaria vivendo de arte, como tenho tanta vontade. Teria me dedicado mais ao que me dá prazer e receberia uma ajuda dos pais. Eu seria assim?

E se eu tivesse amado mais quem me amou e menos quem eu amei? Talvez nunca tivesse saído da minha cidade. Estaria casado, com um filha a cara da mãe, um trabalho estável e preocupado com o que jantar. Leria mais e não veria tantos filmes. Reclamaria da violência enquanto comprava um som novo para o carro. Eu, logo eu?

E se eu não tivesse amado ninguém? Preservaria minha irresponsabilidade adolescente e me mandaria pelo mundo. Moraria em São Paulo, Porto Alegre, João Pessoa, Áustria, Miami ou em todas as cidades ao mesmo tempo. Trabalharia pela internet de qualquer cafeteria e não teria raízes em lugar algum. Seria livre como sonhava ser. Eu?

Penso nas relações que nunca tive e onde elas poderiam ter me levado. E se tivesse ficado com a menina de sorriso tímido no colégio, estaria agora em Minas com ela? E se tivesse puxado assunto com aquela blogueira há anos, seria um “social media” como tantos que conheço? E por que mesmo não investi mais na loirinha do meu prédio que hoje vive no sul?

Penso também nas várias profissões que pensei em seguir. Quando era criança, eu salvei a vida de uma garoto mais novo que estava se afogando na piscina do meu prédio. Mergulhei e o tirei da água, com a ajuda do meu pai, quando ele já agonizava com a falta de ar. Sonhava, claro, em ser bombeiro depois disso, para salvar outras vidas. E se tivesse levado à sério? Ou se tivesse aprimorado o desejo e me tornado médico? Talvez assim eu tivesse mais firmeza nas mãos e autoconfiança, imagino.

Sonho acordado com os trilhos paralelos à minha vida. Quais desvios eu ignorei e em quais entrei inesperadamente? Hoje entendo quem acredita em destino. Deve ser muito gostoso acreditar que o caminho que você está é sempre o certo. Mas, estando onde estou, aprendi a encher a minha existência de perguntas. Portanto, será?

Será que em algum desses trilhos eu poderia ter cometido menos erros, vivido mais em menos tempo, escrito diariamente em um blog menos melancólico, tomado decisões com precisão e certeza, ter me tornado alguém mais útil. Ou poderia ser um inútil completo! Afinal, chances iguais.

Consigo aceitar que não existam certos e errados na vida. Aprendi com as pessoas dos outros vagões que esse maniqueísmo tão “lógico” não é bem uma verdade. Mas por que em alguns momentos o mundo parece esfregar na minha cara o que eu poderia (ou deveria) estar vivendo, só pela diversão de fazê-lo?

Anúncios