Super 8 e Super Pai

Você lembra do primeiro filme que assistiu? A sensação de entrar naquela sala escura pela primeira vez, o cheiro de pipoca e ar-condicionado, a textura do veludo nas paredes, o tecido da poltrona…

Ir ao cinema sempre me traz de volta um pouco dessa sensação. Não importa quanto tempo passe, meu deslumbramento ao ver minhas emoções iluminadas na grande tela não desaparece.

Hoje eu me lembrei do primeiro filme que acredito ter visto no cinema: História Sem Fim. Éramos apenas eu meu pai, pois minha irmã ainda era um bebê e minha mãe provavelmente havia ficado cuidando dela em casa. Fomos ao clássico Cine São Luiz, no calor escaldante do sol de Fortaleza que queimava o chão da Praça do Ferreira.

Compramos pipoca do lado de fora e aguardamos na fila a hora de entrar. Meu pai tentava me preparar para o filme, contando pequenos detalhes da aventura que estava prestes a ver e de como eu deveria me comportar no lugar. Lembro de olhar boquiaberto para o cartaz, imaginando quem eram aquelas criaturas que eu não conseguia descrever com as poucas palavras aprendidas.

Fiquei meio entediado no meio do filme e brinquei dizendo que a história não tinha fim (tu-dum tssss). Mas sai da sala contando o enredo do meu jeito pra todo mundo. Falava do dragão branco (tenho certeza que aprendi a palavra ‘dragão’ naquela hora), do monstro de pedra, da rainha, do herói e do cavalo que morreu triste (como se eu  já entendesse a morte).

Desde esse dia, cinema sempre foi algo ligado à figura dele. Por mais que eu tenha assimilado o gosto por cultura com os dois, e ambos costumem ver filmes e ler livros com muita frequência, intimamente era como se eu dividisse: leio por culpa da minha mãe, vejo filmes por culpa do meu pai.

Mas nunca um filme me fez lembrar disso tudo de um jeito tão forte. Assistindo Super 8 hoje, eu podia sentir os pêlos do meu rosto sumindo, meus poucos músculos encolhendo, minha estatura diminuindo e a dureza no olhar dando lugar ao deslumbramento inocente. Eu não era mais o webdesigner aspirante a escritor morador do Rio de Janeiro, mas o filho do Dourado e da “Mainha” vendo o mundo pela primeira vez.

Eu sei que entrei naquele cinema para ser enganado e provocado como os filmes devem fazer, mas o que eu ganhei foi um abraço fraternal de Spielberg, JJ Abrams e de meu pai. Eu me senti novamente um E.T., mas dessa vez um que queria voltar pra casa só para ter esse abraço de verdade.

Queria ter assistido esse filme com ele para poder sair da sala com a mão no seu ombro enquanto bagunça meu cabelo como sempre faz. Engraçado como parece que é preciso ser tirado do eixo para lembrar da falta que essa distância dele me faz. Super 8 fez isso comigo.

Acredito que uma obra cumpre seu verdadeiro papel como arte quando, ao final, em vez de “parabéns pelo trabalho” a vontade é de dizer “obrigado”.

Logo, muito obrigado aos envolvidos por fazerem eu me lembrar do abraço do meu pai tão vívidamente ao ponto de acreditar que ele finalmente havia vindo me visitar. Obrigado por me lembrarem dos outros pais e mães que conheci e que me marcaram cada um a sua maneira. Mesmo os que já foram serão lembrados sempre com o mesmo carinho que lembro do meu primeiro cinema.

Feliz dia dos pais.

PS: O meu péssimo senso de oportunidade me impede de fazer textos que calhem com alguma data comemorativa. Pela primeira vez isso aconteceu! Até por isso eu poderia agradecer. 🙂

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