Quem sou eu, afinal?

Nunca entendi muito bem quando buscava uma orientação para alguma dúvida da vida e ouvia: seja você mesmo. Sempre questionava se o mentor de ocasião se referia a quem ele acreditava que eu era ou quem eu realmente era. Se fosse a primeira opção, eu podia me tornar essa pessoa?

Na dúvida entre ser e parecer, sempre tentei parecer ser. Assim, desde criança desempenhava papéis que me favoreciam de alguma forma. Depois de tentativas frustradas de ser o Homem-aranha (o que me rendeu uma escrivaninha na cabeça quando tentei grudar em baixo dela) ou o Karatê Kid (hoje estou mais pra Sr. Miyagi), comecei a entender que eu poderia ser diferente para pessoas distintas.

Aos 10 anos, por exemplo, promovi algo que ninguém esperaria de mim. Era época de festa junina e os alunos haviam se dividido entre as barracas de comidas típicas e a dança na quadrilha. Depois da apresentação (sim, eu era da dança) fui fazer companhia aos meus colegas nas barracas montadas na quadra esportiva.

A gente começou com aquelas brincadeiras de perguntar “você viu aonde o Fábio foi” com a boca cheia de farofa. Depois era pipoca no olho dos outros e na roupa das meninas. Não demorou para eu pegar uma colher de arroz doce e sapecar na cara do outro, esquivando, em seguida, de uma mão cheia de cuscuz.

Em segundos, as barracas viraram trincheiras e os pais e avós corriam arrependidos de terem se reproduzido. Corri sozinho para o meio da quadra e fui atingido por uma canjica. Avistei Océlia, a coordenadora, entrando na quadra fumaçando de raiva e vindo em minha direção. Não pensei duas vezes:

— Océlia! Olha só o que fizeram comigo! — Falei com minha cara de bom moço.
— Sai da quadra, Rafael. Eu vou acabar com essa palhaçada agora.

Entre suspensões e puxões de orelha, escapei ileso. Ninguém ali acreditaria que um dos melhores alunos do colégio tinha sido catalizador da maior guerra de comida do bairro.

A aventura me rendeu uma história engraçadinha e uma crise de identidade eterna, agravada com a chegada da adolescência. Nessa época, fiz amizade com um cara “experiente” (o máximo que a juventude permitia) em lidar com o sexo oposto.

Esse amigo me contou seu segredo: homem não pode ter personalidade definida, deve ser o que a mulher espera que ele seja. Eu não sei se o mais absurdo é a frase em si ou o fato de ter tanta gente egocêntrica ao ponto de passar a vida filtrando pessoas de acordo com suas próprias expectativas.

Era fácil, a vítima soltava a característica que mais gostava e eu fingia ser daquele jeito. Espontâneo, discreto, vaidoso, engraçado, decidido, misterioso, qualquer coisa que eu ouvisse ser a fórmula de como um homem deveria ser eu simulava.

Até que me vi fazendo isso em qualquer relação. Eu era o mais capacitado na entrevista de emprego, o namorado perfeito para as amigas da namorada, o aluno promissor na escola, o fígado de ferro na faculdade, ou o oposto de tudo isso só para ver o acontecia. Mas nunca soube quais desses eu realmente era.

Minha última tentativa de ser outra coisa foi quando resolvi ser carioca. Sim, eu achava que alterar meu nascimento seria fácil. Na teoria até que era. Bastava trocar ‘s’ por ‘x’, encaixar um ‘i’ no meio de algumas palavras, ir à praia e à academia o máximo de vezes possível na semana, apagar “arre égua” do meu dicionário e pronto, o projeto menino do rio estaria completo, certo? Incrível como preconceito simplifica tudo.

Mas equilibrar minha intenção com a expectativa alheia passou a me irritar. Parei num limbo onde meu sotaque não tem identidade, minha aparência não é estereótipo de nenhum dos dois estados, e as pessoas ao meu redor são cada vez mais estranhas.

Hoje apenas sei que não quero ser como elas, ou o que esperam que eu seja. Não quero que pensem que sei forró por ser do Ceará, que gosto de praia por estar no litoral, que desvio de bala por morar no Rio, que sou católico por ser brasileiro ou que tenho uma TV porque todo mundo tem. Não sou todo mundo. Ninguém é.

Viver outras vidas durante a única que tenho foi divertido, mas estou meio cansado de pretender ser. Só não sei bem o que sobra se tirar tudo o que sei que não sou.

PS: A idéia desse texto surgiu deste vídeo.