Pensando demais

“Então, esse é o seu filho?” — E me estendeu a mão. Para que ela foi fazer isso?

Um programa de televisão que estava assistindo à tarde havia me ensinado como cumprimentar pessoas. Parecia fácil. Parado diante de alguém a quem devo educação, era só estender a mão oposta à oferecida, encaixar o espaço entre o polegar e o indicador no mesmo local da mão alheia e subir e descer o braço não mais que uma vez. A apresentadora deixou claro que duas vezes seria demais.

Não sei bem porque eu estava assistindo a isso. Imagino que seja pelo fato da minha vida de recém adolescente me garantir muito tempo livre. E de fato não tinha muito o que fazer depois de chegar da escola. Estudar em casa não era meu forte, gostava de assistir aula. Além disso, dever de casa é para os fracos.

Ela continuava com o braço esticado apontado em minha direção. Percebi o quanto a televisão mascarava a vida real. A primeira pessoa do dia que resolveu apertar minha mão não se deu ao trabalho sequer de levantar da cadeira do bar e se posicionar à minha frente. O cotidiano era cruel e criava situações pitorescas como essa. E se tinha que ter jogo de cintura para sair de situações assim.

Eu sempre quis usar essa palavra: pitoresca. Ri com o canto da boca quando a li pela primeira vez num livro d’Os Karas. Pedro Bandeira era o autor. Acho que sim. Achei ela engraçada, não sei por quê. Pi-to-res-ca.

Ela levantou uma sobrancelha e uma gota de suor escorreu pelo meu rosto. Os outros quatro alunos de meu pai, que a acompanhavam, franziam a testa e mantinham um sorriso sem mostrar os dentes. Eu precisava fazer alguma coisa. Mas qual mão eu deveria usar? As chances de acertar eram as mesmas de errar, não dá para escolher assim tão fácil.

Ela estava perpendicular à mim, com o braço direito apoiado na cadeira ao lado e a palma da mão exposta levemente inclinada. Meu pai, ao meu lado, apertava meu ombro com carinho, mas aumentava devagar a pressão. Tirei as mãos dos bolsos e ameacei um movimento com o lado direito. Mudei de idéia no caminho e voltei atrás para pensar melhor.

Eu morria de medo de fazer papel de idiota a qualquer hora. Principalmente diante de adultos. Isso me garantia uma timidez digna de pena. Porém, tinha lido numa revista da minha irmã que meninas gostavam de caras tímidos, pois pareciam misteriosos. A julgar pelo número de pretendentes, elas estavam mentindo descaradamente. O que diriam ao saber que o maior mistério da minha vida era saber como cumprimentar alguém sem parecer um “sem jeito”?

Ela sacudiu a mão como quem tenta dar corda num brinquedo parado. O coração se debatia em meu peito de tão nervoso que estava por mim. Senti suar a mão esquerda e encarei como uma dica do meu corpo para a minha dúvida. Fiz minha aposta. Estiquei o braço esquerdo, apertei sua mão, subi e desci o braço não mais que uma vez. Duas vezes seria demais, né?

“É a outra.” — Ela falou baixinho. Troquei as mãos sem ninguém perceber.

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