Trinta

Estou velho. Padeço de uma velhice intrínseca, própria, preguiçosa e prazerosa. Queria estar velho. E por muito tempo imaginei que nunca ficaria. Apeguei-me tanto aos primeiros anos que acreditei piamente que não acabariam. Sentia que a juventude me caía bem, mas que não me pertencia. Era apenas uma casca que nutria o velho que me tornaria. E a cada nova dor sentida com pressões exageradas nos tendões, cada ranger de ossos que se roçavam quando não deveriam sequer se tocar, cada camada de pele arrancada com quedas, tropeços e insolações, o velho resmungava lá de dentro tentando adiar seu despertar. Desculpa, velho, mas ansiava conhecê-lo.

Tinha 3 anos. O sol queimava o barro do telhado da casa de minha avó com um ódio não correspondido. As janelas e portas escancaradas deixavam entrar um vento forte que secava o suor das quase vinte pessoas de dentro da casa. Pais, tios, primos e avós maternos riam e comiam sem parar enquanto faziam graça uns com os outros. Às vezes se engasgavam quando trocavam a ordem, e aí eu que ria. “Adultos falam alto porque são grandes. Por isso minha tia baixinha falava mais baixo.”

Eu brincava sentado no chão no meio da sala com meu brinquedo favorito: um gravador. Aprendi a usá-lo em 2 minutos e não queria mais nada da vida. O mundo sacudia ao meu redor a cada gargalhada de meus tios gigantes e a cada passo pesado que desviava da minha cabeça. Eu narrava todos os acontecimentos para o gravador e ria sozinho da minha própria voz. Descrevia a vaca que passava pela janela balançando o sino no pescoço, a lagartixa que se esgueirava pelo canto da parede e causava nojo em alguma das tias que a viam, o cheiro de cigarro da mesa verde onde se aglomeravam os homens da casa, e imaginava o próximo prato de comida que minha avó traria. Torcia pra ela fazer “bruaca” só por causa do nome.

Quando me entediei de brincar sozinho, saí pela casa pedindo para cada um falar alguma coisa para o gravador. Falavam, eu gravava, depois repetia o que diziam imitando cada um. Conheci a impaciência adulta quando um dos tios gritou: Para, que DROGA, Rafael! Corri rapidinho para o móvel central, encostei o gravador, segurei o microfone com as duas mãos e falei em voz crescente para o aparelho: Tio Bill falando: dooooga. “Quando grito, viro adulto.”

Tinha 10 anos. Perguntavam-me com frequência o que queria ser quando crescer e eu dizia: motorista de caminhão. Já tinha aprendido que as respostas que causavam risos ou nervosismo eram sempre as melhores. Mas às vezes respondia “professor” para seguir os pais. Também sabia que agradar aos pais era importante. E foi essa a resposta que escolhi para o casal desconhecido que compartilhavam conosco a área da piscina do prédio.

O filho deles era mais novo que eu e brincava com um submarino de plástico na borda da piscina, pois ainda não sabia nadar. Eu, com anos de experiência em natação em açudes no interior, fui encarregado por meu pai de cuidar do filho alheio. O peso da responsabilidade me agradava, mas a teimosia da criança me aborrecia. Ficava no raso, mas corria pela borda para o lado fundo da piscina quando eu me afastava dele para nadar. Cansado de ser responsável, saio da água e fico ao lado do meu pai ouvindo a conversa. Duplamente entediado, volto para a piscina e não encontro mais o garoto. Vejo o submarino de plástico boiando a poucos palmos da borda oposta, mas nem sinal do filho do casal por perto. Estico o pescoço enquanto me aproximo da piscina e mergulho ao avistar a criança debaixo d’água. Submerso, tento segurar seus braços, mas ele me puxa pelos cabelos enquanto se debate. Abaixo a cabeça, apoio-o com as duas mãos e o levanto para fora da água e ouço um grito abafado. Ele cai novamente se debatendo e eu não consigo mais segurá-lo. Meu pai mergulha, consegue arrancá-lo da água e eu dou num sinal de que estou bem. Os pais foram os últimos a chegar e abraçaram o filho que desengasgava tentando respirar. Entrego o submarino para o menino com os olhos roxos e vejo-os ir embora. Volto para casa enrolado numa toalha e, quando meu pai conta à minha mãe que salvei uma vida, digo: Quando crescer, quero ser bombeiro. “Adultos cuidam dos outros.”

Tinha 17 anos. Entrara na faculdade e achava que finalmente poderia dar o primeiro passo para ser adulto: ter um emprego. A associação tinha sido feita presenciando por anos os pais workaholics. Aquilo que os ocupava por tanto tempo parecia dar-lhes algum prazer, e eu também queria. Felizmente, apenas a matrícula num curso superior já era suficiente para conseguir um estágio numa agência de publicidade. E impressionar aqueles senhores que ainda se acostumavam aos computadores era simples para qualquer espécie da geração Y. Meia dúzia de atalhos do Photoshop decorados somados à incrível habilidade de digitar sem olhar para o teclado e eu já estava apto a trabalhar no pior horário do dia: 17 horas, quando todos os clientes se lembravam de que tinham prazos e os veículos reforçavam que esses prazos já estavam acabando.

E é claro que incêndios não poderiam ser apagados sem a devida supervisão dos donos da agência, figuras lendárias da publicidade cearense conhecidas por seus infinitos cigarros e excentricidades. A sócia era a figura mais presente em nossa sala. Seu porte físico colossal casava perfeitamente com sua voz turbulenta e carisma avassalador. Por vezes, plantava-se atrás de minha cadeira como um monumento egípcio e conduzia meu trabalho com a habilidade de um flanelinha do centro da cidade, cuspindo (literalmente) jargões que ela própria criava e que nós ajudávamos a disseminar. Um dia, entre respingos de saliva e vultos de gestos bruscos que surgiam entre o monitor e minha vista, eu tentava finalizar um trabalho que já se estendia pela noite de sexta-feira quando senti o inesperado peso de uma mão no ombro.
— Meu amor! — O erre vibrava como um diapasão. — Quantos anos você tem?
— Dezessete.
— 17 anos e está aqui até essa hora ouvindo meus gritos? Você é doido? Vá comer buceta, rapaz!
“Adultos trabalham, mas nem tanto.”

Tinha 25 anos. Acreditava já ser gente grande e abraçava com força todas as responsabilidades possíveis encontradas no caminho. Acordava cedo, fazia a barba, batia ponto, reclamava do trabalho, engolia a comida, dava ordens, negociava prazos, lidava com clientes, aturava grosserias, contraía doenças, brigava no trânsito, entrava em pânico. Era um homem. A mistura da obrigação de um emprego fixo com a aventura do empreendedorismo e o experimento como professor universitário pareciam ser a fórmula para me tornar o que eu queria ser. Só não sabia o que era ser o que eu queria. Em pouco tempo, tudo passou a ser irritante. Acordar cedo era um tormento e dormir era meu único objetivo para passar o dia. A cidade, as pessoas, o clima… O mundo parecia tentar me expulsar dele e não encontrava em mim sequer alguma resistência. Os empregos se foram, a empresa fechou, as aulas acabaram e eu fui embora. Não do mundo, mas da cidade. Para o mundo, ainda busco alternativa. “…”

Tenho trinta anos. Assim mesmo, por extenso. E achei que deveria cumprir uma “tradição” recém criada por mim ao chegar nessa hora. Como meu pai fez na época dele, resolvi fazer na minha: li A Idade Da Razão, de Jean-Paul Sartre, e escrevi este texto. Encontrei-me na obra inteira. Na negação do manual social do protagonista Mathieu, na inconsequência tardiamente infantil de Boris, na angústia vazia de Ivich, na sensação de tempo perdido de Lola e no desprezo gratuito e nem sempre velado de Daniel. Tornei-me um livro. Percebi que havia sonhado com o que seria, sido o que queria, e descoberto o que não quero. E não quero ser o mesmo. Não quero a burrice juvenil que ainda me contamina, o descontrole emocional dos que pouco viveram, o idealismo intelectual meramente esportivo. Não quero mais precisar. Também não quero mais o despropósito das obrigações adultas, o encarceramento diário de prazeres, as tantas regras para colocar tudo nas caixas que me entregaram. Não quero mais pretender ou parecer. Quero ser. E ser velho me soa bem. O velho circulou por ideologias, balançou várias bandeiras, conheceu tipos e não-tipos, misturou tudo e escolheu o que lhe servia. Desistiu de caminhos, escolheu as lutas que valem o esforço, aceitou as marcas na pele e encontrou seu lugar e sua companhia. Talvez volte à superestimada juventude quando a razão partir, arrancada por um filho que espero ter, por mudanças que ainda espero fazer, ou por sensações que nem imagino sentir. A idade da razão já me rodeava. Só espero fazer jus a ela.

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4 comentários sobre “Trinta

  1. Haverá razão na idade? Isto busco há tempos. A primeira reflexão se deu nos tempos do seminário franciscano, quando entre declinações latinas e ciências naturais, me deparei com os tornozelos da professora e pulei o muro, fui pra rua e nunca mais voltei. Depois veio o rito de passagem dos dezoito, quando as paixões acadêmicas e as primeiras aulas me fizeram mestre de mim mesmo; me fiz cidadão. Pouco depois, veio o amor com todas as suas letras; então me fiz homem; logo me vi pai, duplamente pai; e pai, me fiz homem por inteiro; de meu pai, me fiz irmão e compartilhei sua irmandade. Mas passou tudo rápido demais. Me refiz algumas vezes. Repeti modelos experimentais sob novas óticas; amei de novo, fui pai de novo. No percurso, me entreguei, me doei, me deixei explorar, explorei. Vivi intensamente todos os momentos que sobraram meus. Ainda não encontrei a razão definitiva. Não sei sua idade, nem sei se já tenho a idade dela. Mas acredito valer a pena caminhar, experimentar todas as idades, ir em busca daquilo que se espalhou por ai como razão e a que deram o nome de felicidade. Piegas? Talvez, mas a busca segue, e eu sigo nela.

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  2. Adorei lembrar da “bruaca” que a vó fazia. Além de também me identificar com os 30, sendo o velho que “…misturou tudo e escolheu o que lhe servia. Desistiu de caminhos, escolheu as lutas que valem o esforço, aceitou as marcas na pele e encontrou seu lugar e sua companhia”. Vida longa, Rafael!

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  3. Maravilha de “balanço”. Espero que de tempos em tempos vc faça um update pra que a gente acompanhe o alinhar com o homem velho. Sou velha. Desde sempre. E sempre acho que estou atrasada. Mas passo cremes modernos pra adiar as marcas da idade 😉 Excelente texto, como sempre.

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