Pausa

– Açúcar ou adoçante? – perguntou o atendente da cafeteria com incomum cordialidade. Naquele calor, com quem o ar-condicionado travava uma batalha perdida, a má educação era compreensível. Mas o código social não previa tamanha disposição acima dos 40°. Aquela gentileza me deixou sem resposta. Não sabia que gosto queria sentir naquele dia.

Ignorei o açúcar que chegou à mesa. Veio numa cerâmica pequena, pouco maior que a colher que a acompanhava. Tudo naquele lugar era em menor proporção. A cadeira de madeira com as juntas frouxas apoiavam minha coluna com esforço. A mesinha de granito deixava escapar meus cotovelos nas bordas, e controlava meu desleixo cutucando minhas pernas com seus ornamentos de ferro. Mas as paredes em amarelo claro, e com prateleiras de doces, compensavam a rigidez da minha e das outras 5 mesas, tornando o ambiente agradável o suficiente para uma pausa num dia útil.

O doce de leite na prateleira do meio roubou a atenção que meu café antes usufruía. A saliva que banhava minha língua fingia trazer aquele gosto bem comum até pouco tempo. Tão bom que lembrei de quando era usado como moeda de troca por minha mãe. Um cubinho de doce se guardasse na gaveta as revistas em quadrinhos espalhadas pela cama. Dois se terminasse o dever de casa. Anos depois aprendi que nosso pequeno acordo tinha nome: behaviorismo. Nunca uma palavra tão feia me pareceu tão gostosa.

Os salgados vieram com o tempo. Pizzas, hambúrgueres, sanduíches e frituras nutriam músculos e ensebavam a pele. Mas minhas comidas preferidas não eram mais um prêmio por bom comportamento, eram um posicionamento social.

Comer “besteiras”, por exemplo, deveria ficar para trás, assim como a lancheira do Chapolin. Pegava mal, né?

A quebra era tão brusca que muitos diziam que doce e salgado sequer podiam ser misturados. Aparentemente, estava escrito em letras miúdas na 2ª tábua dos 10 mandamentos. E se esse aparte não fosse suficiente, ainda inventavam que salgado era masculino e doce feminino. Mundos completamente diferentes separados pela língua. Assim, o proibido ganhou gosto.

Distraído, mergulhei meu dedo no café e o susto me trouxe de volta. As lembranças se afastaram e pareciam já estar há décadas de distância. E, de fato, estavam.

Olhei ao redor e vi que não era o único nostálgico do lugar. Ao lado, um rapaz mais novo (apesar da barba generosa) tomava chá e desenhava num caderno com fecho de barbante. Próximas à janela com uma horta falsa, duas amigas executivas se divertiam tomando café coado na hora levantando o dedinho ironicamente. E se contorcendo entre as mesas em direção a saída, uma senhor tatuado tirava do bolso um celular com uma câmera analógica na capa.

Tudo era muito familiar. Esquisito, mas familiar.

Mas o líquido já inerte em minha xícara ainda guardava uma lembrança. Um amigo que, para meu espanto, nunca usava qualquer açúcar ou adoçante. Tomava café puro, e era sempre repreendido pela mãe da mesma forma. “Meu filho, de amarga basta a vida.”

Vivi o suficiente para gostar do amargo? Na dúvida, tomei o café frio em um único gole.
E voltei ao trabalho.