Super 8 e Super Pai

Você lembra do primeiro filme que assistiu? A sensação de entrar naquela sala escura pela primeira vez, o cheiro de pipoca e ar-condicionado, a textura do veludo nas paredes, o tecido da poltrona…

Ir ao cinema sempre me traz de volta um pouco dessa sensação. Não importa quanto tempo passe, meu deslumbramento ao ver minhas emoções iluminadas na grande tela não desaparece.

Hoje eu me lembrei do primeiro filme que acredito ter visto no cinema: História Sem Fim. Éramos apenas eu meu pai, pois minha irmã ainda era um bebê e minha mãe provavelmente havia ficado cuidando dela em casa. Fomos ao clássico Cine São Luiz, no calor escaldante do sol de Fortaleza que queimava o chão da Praça do Ferreira.

Compramos pipoca do lado de fora e aguardamos na fila a hora de entrar. Meu pai tentava me preparar para o filme, contando pequenos detalhes da aventura que estava prestes a ver e de como eu deveria me comportar no lugar. Lembro de olhar boquiaberto para o cartaz, imaginando quem eram aquelas criaturas que eu não conseguia descrever com as poucas palavras aprendidas.

Fiquei meio entediado no meio do filme e brinquei dizendo que a história não tinha fim (tu-dum tssss). Mas sai da sala contando o enredo do meu jeito pra todo mundo. Falava do dragão branco (tenho certeza que aprendi a palavra ‘dragão’ naquela hora), do monstro de pedra, da rainha, do herói e do cavalo que morreu triste (como se eu  já entendesse a morte).

Desde esse dia, cinema sempre foi algo ligado à figura dele. Por mais que eu tenha assimilado o gosto por cultura com os dois, e ambos costumem ver filmes e ler livros com muita frequência, intimamente era como se eu dividisse: leio por culpa da minha mãe, vejo filmes por culpa do meu pai.

Mas nunca um filme me fez lembrar disso tudo de um jeito tão forte. Assistindo Super 8 hoje, eu podia sentir os pêlos do meu rosto sumindo, meus poucos músculos encolhendo, minha estatura diminuindo e a dureza no olhar dando lugar ao deslumbramento inocente. Eu não era mais o webdesigner aspirante a escritor morador do Rio de Janeiro, mas o filho do Dourado e da “Mainha” vendo o mundo pela primeira vez.

Eu sei que entrei naquele cinema para ser enganado e provocado como os filmes devem fazer, mas o que eu ganhei foi um abraço fraternal de Spielberg, JJ Abrams e de meu pai. Eu me senti novamente um E.T., mas dessa vez um que queria voltar pra casa só para ter esse abraço de verdade.

Queria ter assistido esse filme com ele para poder sair da sala com a mão no seu ombro enquanto bagunça meu cabelo como sempre faz. Engraçado como parece que é preciso ser tirado do eixo para lembrar da falta que essa distância dele me faz. Super 8 fez isso comigo.

Acredito que uma obra cumpre seu verdadeiro papel como arte quando, ao final, em vez de “parabéns pelo trabalho” a vontade é de dizer “obrigado”.

Logo, muito obrigado aos envolvidos por fazerem eu me lembrar do abraço do meu pai tão vívidamente ao ponto de acreditar que ele finalmente havia vindo me visitar. Obrigado por me lembrarem dos outros pais e mães que conheci e que me marcaram cada um a sua maneira. Mesmo os que já foram serão lembrados sempre com o mesmo carinho que lembro do meu primeiro cinema.

Feliz dia dos pais.

PS: O meu péssimo senso de oportunidade me impede de fazer textos que calhem com alguma data comemorativa. Pela primeira vez isso aconteceu! Até por isso eu poderia agradecer. 🙂

E se…

E se todos os planos que fiz tivessem dado certo? Se eu tivesse passado no vestibular para informática, não para publicidade. Se tivesse feito faculdade em Campinas, não em Fortaleza. Se tivesse aprendido todas as línguas que um dia quis. Seria um nerd esquisito falando mandarim e puxando o erre. Esse seria eu?

E se tudo tivesse dado errado? Se eu não fosse formado até hoje, teria inventado algo para ganhar dinheiro. Estaria vivendo de arte, como tenho tanta vontade. Teria me dedicado mais ao que me dá prazer e receberia uma ajuda dos pais. Eu seria assim?

E se eu tivesse amado mais quem me amou e menos quem eu amei? Talvez nunca tivesse saído da minha cidade. Estaria casado, com um filha a cara da mãe, um trabalho estável e preocupado com o que jantar. Leria mais e não veria tantos filmes. Reclamaria da violência enquanto comprava um som novo para o carro. Eu, logo eu?

E se eu não tivesse amado ninguém? Preservaria minha irresponsabilidade adolescente e me mandaria pelo mundo. Moraria em São Paulo, Porto Alegre, João Pessoa, Áustria, Miami ou em todas as cidades ao mesmo tempo. Trabalharia pela internet de qualquer cafeteria e não teria raízes em lugar algum. Seria livre como sonhava ser. Eu?

Penso nas relações que nunca tive e onde elas poderiam ter me levado. E se tivesse ficado com a menina de sorriso tímido no colégio, estaria agora em Minas com ela? E se tivesse puxado assunto com aquela blogueira há anos, seria um “social media” como tantos que conheço? E por que mesmo não investi mais na loirinha do meu prédio que hoje vive no sul?

Penso também nas várias profissões que pensei em seguir. Quando era criança, eu salvei a vida de uma garoto mais novo que estava se afogando na piscina do meu prédio. Mergulhei e o tirei da água, com a ajuda do meu pai, quando ele já agonizava com a falta de ar. Sonhava, claro, em ser bombeiro depois disso, para salvar outras vidas. E se tivesse levado à sério? Ou se tivesse aprimorado o desejo e me tornado médico? Talvez assim eu tivesse mais firmeza nas mãos e autoconfiança, imagino.

Sonho acordado com os trilhos paralelos à minha vida. Quais desvios eu ignorei e em quais entrei inesperadamente? Hoje entendo quem acredita em destino. Deve ser muito gostoso acreditar que o caminho que você está é sempre o certo. Mas, estando onde estou, aprendi a encher a minha existência de perguntas. Portanto, será?

Será que em algum desses trilhos eu poderia ter cometido menos erros, vivido mais em menos tempo, escrito diariamente em um blog menos melancólico, tomado decisões com precisão e certeza, ter me tornado alguém mais útil. Ou poderia ser um inútil completo! Afinal, chances iguais.

Consigo aceitar que não existam certos e errados na vida. Aprendi com as pessoas dos outros vagões que esse maniqueísmo tão “lógico” não é bem uma verdade. Mas por que em alguns momentos o mundo parece esfregar na minha cara o que eu poderia (ou deveria) estar vivendo, só pela diversão de fazê-lo?

O Estrangeiro

O estrangeiro é como um alienígena de sitcom. Chegou a um planeta completamente desconhecido e tenta se mesclar aos terráqueos estudando o comportamento deles. Por quê? Para uma posterior invasão alienígena, quem sabe? O importante é que o E.T. aqui faz uma besteira atrás da outra tentando se adaptar ao novo mundo.

Primeiro, o estrangeiro acha que os nativos não fazem sentido. Ele não compreende como machos e fêmeas da espécie passam o tempo reclamando de si, sem nenhum dos lados escutar o outro. Também não entende que deixar de seguir no Twitter é como perder um amigo, mas desejar feliz aniversário pela rede é impessoal demais. Aliás, por que essa mania de segregação dos nativos? Zona urbana, moradia, estado civil, condição financeira, tudo é motivo para se fechar em grupos exclusivos. Além disso, como conseguem tanta disposição para brigas e discussões morando num mundo tão bonito e atraente a tantos alienígenas como ele por aí?

Bom, convenhamos, o estrangeiro também é estranho — como a etimilogia sugere. Para começar, vive se enrolando com tantas novas convenções sociais. E nem sempre acerta na combinação roupa/clima/ambiente. Também possui um senso de humor esquisito de autoflagelação e ironia pouco óbvias, incomum fora de seu planeta. Até mesmo a forma como fala confunde qualquer interlocutor nativo, com seu vocabulário próprio e pouco (ou excesso de) tato na postura.

Isso acaba fazendo com qum o estrangeiro também se sinta um pouco solitário. Não por falta de amigos — ele se beneficia da empatia dos nativos —, mas seus muitos medos, como o de ser inconveniente ou chato, tornam suas anteninhas de vinil e pele esverdeada difíceis de disfarçar. Ele sabe que uma coincidência evolutiva o fez biologicamente semelhante aos seus anfitriões, mas isso não o torna necessariamente um membro da espécie, como achou ser possível.

Não que isso faça muita diferença em sua cabeça. Tanto que o estrangeiro adora tirar onda de “estrangeiro” quando volta à sua terra. Imita os trejeitos e o palavreado do planeta hospedeiro tentando, em vão, enganar seus conterrâneos, só de sacanagem. Percebe-se que noção do ridículo não é uma de suas maiores habilidades.

A verdade é que o estrangeiro cometeu um erro. Ele ignorou seu guia (de mochileiro das galáxias) e se apaixonou perdidamente pelo seu novo mundo. O estilo de vida, as diferentes estações do ano, a geografia, o jeito engraçado e confiante dos nativos, as possibilidades que o planeta apresentou…

E tudo que ele mais quer na vida agora é ser feliz no mundo que ele descobriu. Mas, até nisso ele consegue se enrolar. Afinal, ser feliz não é o que todo mundo quer?

Bem (Mesmo) Sozinho

Hora de transformar meros conhecidos em grandes amigos. Esse foi um dos primeiros conselhos que recebi quando me vi sozinho no Rio de Janeiro. Mas nunca imaginei que fazer amigos depois de “velho” em minha nova cidade seria tão difícil.

Lembro que fazer novas amizades na infância era muito simples. Trocava socos com alguém no recreio, chutava a bola para o terreno vizinho, nos apaixonávamos pela mesma menina e, como se tudo isso fosse motivo, nos tornávamos melhores amigos. Mesmo 15 anos depois, continuamos assim, sem sequer lembrar a origem da amizade.

Aprendi com eles a fazer amigos para sempre. Não importa se uns ficaram ricos ou pobres, se casaram ou separaram, se mudaram de país ou de rua, ou se brigamos com ou sem motivo. Nossa cumplicidade deve se manter inabalável.

Na minha mudança para o Rio de Janeiro, fui muito bem recebido pelos amigos de minha… anfitriã. Eram pessoas simpáticas, extremamente inteligentes e admiráveis. Combinavam com ela e, consequentemente, me identifiquei com muitos deles. Mesmo sendo normalmente referenciado como “namorado de N.” (cargo que eu gostava de ocupar), sempre era tratado com simpatia e respeito. Até desocupar o cargo.

Depois disso, muitos se afastaram e eu me afastei de outros — os mais próximos a ela, por uma questão de sanidade. Ainda tentei manter contato com quem conversava mais, mas para alguns o respeito não era mais necessário ou apenas não tínhamos mais “assunto”. Eram amigos dela, não meus. E apesar das decepções, conheci quem valia a pena. Ainda assim, tinha um longo caminho para uma grande amizade.

Desde então, passei a desbravar novos ambientes e conhecer gente diferente. O dia a dia de trabalho, cursos breves de coisas que me interessavam e muita conversa pela internet me apresentaram pessoas com as quais me identificava. Logo, agora era sair algumas vezes para programas diferentes, jogar muita conversa fora para confirmar a afinidade inicial e, assim, sermos amigos, correto? Nem tanto.

Convites são ignorados, mensagens ficam sem resposta, pessoas somem, o “vamos marcar” nunca chega, pequenas mentiras são ditas, saudades são menosprezadas, imprevistos acontecem, agendas conflitam, tudo atrapalha. E o carinho que eu sentia por cada pessoa vai murchando. Enquanto a sensação de vazio vai crescendo.

E se eu precisar de alguém? Se adoecer ou acontecer um acidente? Se eu quiser comemorar algo, quem eu chamo? Se estiver triste e precisar de apoio? Em quem poderei confiar?

Identifico em certas pessoas as respostas para algumas dessas perguntas — sendo até surpreendido às vezes. Por isso, deposito nelas, mesmo com certo medo do que já foi vivido, minha confiança e meu carinho. E espero que o tempo apague meu medo e só nos torne mais próximos.

Portanto… Ei, você aí com quem eu falo de vez em quando e pergunto como está. Realmente gostaria de saber como está.
Você que convido para o cinema, teatro ou para tomar um chopp. Passei em frente a um local que vai gostar de conhecer. Vamos juntos?
Você que ganhou presente meu fora de qualquer ocasião só porque eu tinha certeza de que iria gostar. Bem que acertei, não foi?
Você que eu não vejo há meses. Eu sinto sua falta.
Você que mora na mesma cidade que eu, mas só nos falamos online. Eu gosto de você assim mesmo, mas acho que vou gostar mais se te der um abraço.
Você que sumiu. Apareça de novo, por favor. Não costumo esquecer meus amigos.

Eu me recuso a acreditar em quem fala que há um limite de idade para se fazer novos amigos. E também sei que preciso estar bem comigo, mesmo sozinho. Mas qual a graça de estar bem se não tiver ninguém para contar como estou?

Ainda e sempre

Eu nunca perco costumes. Só acrescento à minha lista, que nunca diminui, mais e mais manias e lembranças associadas ao cotidiano. O que me obriga a lembrar de vários rostos que não vejo diariamente, mas que me marcaram de formas particulares.

Ainda corto o sanduíche pela metade antes de comer.
Ainda guardo as contas pagas como me ensinou.
Ainda amarro o cadarço do “jeito certo”.
Ainda rio quando assisto X-Men (filmes com E).
Sempre conto suas histórias como se fossem minhas (já mataram o Kill Bill?)

Minha mente ainda viaja 246km quando visto a camisa que me deu.
Ainda me preocupo com suas indefinições.
Ainda lembro da promessa de ser seu amigo pra sempre.
Sempre penso em você quando como pão de queijo.

Ainda olho lugares interessantes e penso: um dia venho com você aqui.
Ainda penso em tirar fotos de cachorros na rua para te mostrar depois.
Ainda guardo aquele tênis branco, mas não uso mais.
Ainda tento repetir aquele sorriso em fotos.
Sempre rio quando tento pronunciar Osklen.

Ainda lembro de você quando bebo tequila.
Ainda me obrigo a fazer algo quando me sinto sozinho.
Ainda tenho vontade de assistir Cirque du Soleil contigo.
E tenho inveja por você ter visto antes de mim.

Ainda lembro da minha cabeça no seu colo.
Ainda lembro da sua cabeça no meu peito.
Sempre quero sua companhia em todos os filmes que vejo.
E sempre acordo esperando seu bom dia.

Sempre lembro de todos os seus conselhos.
Namore muito, e seja fiel a todas elas.
Falta de tempo não é desculpa. Tempo se arranja.
Você pode ser bom em qualquer coisa que quiser e tentar ser.
Não seja tão negativo. Se for pra falar, fale coisas boas.
Ainda te desobedeço, às vezes.

Ainda choro quando nos falamos ao telefone.
Ainda compro frutas porque você disse pra eu comer direito.
Ainda sinto falta de uma mesa na cozinha pra por o papo em dia.
E sempre lembro da sua frase: acho que criei você com juízo demais.

Carta aberta ao amor seguinte

Caro amor seguinte.

Tendo em vista minhas últimas tentativas frustradas de fazer alguém feliz, sinto-me na obrigação de alertá-la sobre a pessoa que de fato sou. Veja bem, acredito que faça parte do jogo de sedução tentar parecer alguém melhor. Ambos fazemos isso. O problema é quando um de nós é convincente demais, ou trouxa demais.

Por isso, fica aqui o meu primeiro alerta: eu minto. Minto com uma cara de pau que você poucas vezes presenciará. Não que eu queira ou goste de mentir, mas eu preciso. Não posso deixar que descubra o covarde que sou de verdade. Não suportaria seu olhar de decepção ao perceber que não sou o que pareci ser. Prefiro ser eu o trouxa.

Também sou confuso e inconstante. Você será tratada como a mulher da minha vida num dia, mas no outro se sentirá um estorvo. Não por algo que você tenha feito ou dito, mas por eu estar com tanta coisa na cabeça que se envolvê-la nesse turbilhão nenhum dos dois sairá são. E eu espero que pelo menos um de nós mantenha o juízo.

Juízo para entender que ficarei calado quando brigarmos. Sim, tenho até uma boa desculpa científica para isso, mas o fato é que eu não sei falar. Fico nervoso, falo besteira, é terrível. Logo, dependendo da situação, você ganhará uma carta, um e-mail, ou um post com tudo o que queria dizer e o cromossomo Y me impediu na hora.

Além disso, preciso fazer jus ao nome deste blog e assumir: eu sei ser canalha. Já brinquei com os sentimentos de outras e carrego esse fardo até hoje comigo. Pois cometo erros, mas não sou mau caráter. Sou autocrítico o suficiente para viver em conflito com minha consciência mesmo sem sua “ajuda”.

Desculpe-me se fui grosseiro nesta carta. Mas hoje acredito que qualidades são obrigações, e defeitos são escolhas. Tratá-la como a mulher mais incrível a habitar este planeta é o mínimo que eu como seu amor devo fazer. Mas é você quem decide aguentar ou não os defeitos que vêm junto.

Sei que o amor deveria vir sem esforço, naturalmente. E esta saga pessoal registrada aqui está bem longe de parecer fácil. Mas finalmente acredito estar errado sobre isso. Eu só não queria cair nas mesmas armadilhas.

O que não ficou para trás

» Leia o prólogo antes, por favor.

Após algumas trocas de mensagens via Twitter, o inevitável ocorreu: precisávamos um do outro. Horas e horas de papo online logo me mostraram o quanto ela era muito mais interessante do que sua mini bio dizia. “Carioca, advogada, funkeira e flamenguista” era uma descrição tão rasa que soava quase absurda.

E de tanto nos falarmos, viramos os melhores amigos “virtuais” que poderíamos ter. Virtuais, pois como poderíamos nos sentir tão próximos de alguém que nunca havíamos tocado ou abraçado? Meio absurdo, mesmo hoje em dia, sentir saudades de quem só se mostrava em forma de bytes e pixels. Inexplicável, pensávamos, mas também era totalmente irresistível.

Trocávamos segredos, confissões e carinho. Sabíamos tudo um do outro, das maiores qualidades e alegrias às piores dores e defeitos. Até que transformamos um acontecimento ruim para mim numa ótima oportunidade para ambos. Finalmente iríamos sair do monitor e nos encontrarmos. 73 dias seria a primeira de tantas outras contagens regressivas.

Conheci no mesmo dia a cidade e a mulher maravilhosa. Nossa ligação foi tão forte que não conseguíamos tirar as mãos um do outro desde o primeiro abraço. No carro, dedos entrelaçados e palavras sussuradas de carinho durante todo o percurso até em casa. Eu me esforçava em dar atenção aos seus pais, que não continham a curiosidade a meu respeito, mas mal percebia que existia um mundo além daqueles olhos verdes.

Por dias fingimos ser apenas bons amigos. Queríamos ser discretos e até cautelosos enquanto ríamos da desconfiança de todos. “Como podem ser só amigos se estão sempre trocando carinho?” — sua mãe perguntava. Não éramos muito bons no disfarce, confesso.

Também fingi para mim mesmo que não estava apaixonado desde o aeroporto. Mas uma noite na Lapa destruiu qualquer resistência minha. “Se eu morasse no Rio, você namoraria comigo?” — perguntei. Ela disse que sim! Minha vida havia ganho um novo objetivo, e eu iria cumprí-lo a qualquer custo.

Sabíamos que namorar à distância não seria fácil, mas também sabíamos que o sacrifício tinha data para acabar. Prometi que em exatamente um ano estaríamos morando na mesma cidade. Até lá, tínhamos o mundo um do outro a explorar.

Abrimos nossas vidas para visita e nós mesmos seríamos os guias. Por um ano, fizemos malabarismos com nosso orçamento e tempo para nos vermos cerca de uma vez por mês. Assim, conhecíamos cada fragmento de nossa cidade natal e de nosso estilo de vida.

Ela, uma apaixonada por praias, se encantava com Porto das Dunas, Beach Park, Canoa Quebrada e Praia do Futuro. Eu, um deslumbrado pelo Rio, adorava conhecer seus vários cinemas, os bares e botequins sempre tão convidativos, os passeios de bicicleta na praia… Achava (acho) a vida no Rio muito charmosa e me sentia parte da vida dela a cada novo lugar que conhecíamos. O curioso é que acompanhando-a nos passeios, eu tentava ver minha cidade com outros olhos e descobri coisas que gostava e nem lembrava.

Assim, íamos percebendo que, apesar de difícil, existiam muitas coisas boas em um namoro à distância. Chego a suar frio só de lembrar o quanto ficava ansioso esperando ela sair pelo portão de desembarque do aeroporto. Cada reencontro nosso era uma sensação de euforia misturada com alívio que poucas vezes senti na vida. Alívio daquela pessoa existir e ser o mundo pra mim, e euforia por tudo que ainda faríamos juntos.

Quando o final do ano se aproximou, era hora de cumprir minha promessa: comprei minha passagem só de ida. Nunca vou esquecer do comentário dela no Twitter. “Hoje é o dia mais feliz da minha vida.” Já o meu, foi ser recebido de braços abertos por ela em sua cidade. Tudo aquilo que sonhei o ano inteiro finalmente estava prestes a acontecer.

Revivendo alguns momentos, lembro como era gostosa nossa convivência. Tão fácil, tão simples, tão próxima… Minha mãe até dizia admirar a ligação que a gente tinha. “Acho que nunca te vi tão à vontade com alguém.”

Mas ela tornava isso simples. A forma como me olhava de longe quando eu tentava me socializar com seus amigos, como sempre acertava tudo que eu gostava, como tinha paciência de me ajudar a comprar roupas recebendo as fotos por mms, como reduzíamos a distância que nos separava demonstrando carinho a todo momento, como me recebeu (e me aguentou) na casa de sua família enquanto eu procurava um lugar para mim, como me ajudou a comprar e organizar as primeiras coisas para o novo apartamento…

Não posso guardar mágoas de alguém assim. Quero essa boas lembranças para sempre. E quero ter outras histórias como essa para contar. Mudaria apenas o final.

O que não ficou para trás – Prólogo

Já viram post com prólogo? Eu não, mas achei que seria necessário nesse caso.

Não é exatamente um segredo que este blog surgiu em um momento de “fossa” pelo fim do meu último namoro. Como escrever sempre foi uma forma de expurgar meus dramas pessoais, acabei criando o Autocrítica com essa finalidade. Mas isso mudou um pouco à medida que mais textos foram sendo escritos.

Já há algum tempo, meus posts eram um exercício de escrita, mais do que uma catarse. Isso significa que exagerava certos aspectos para tornar a leitura mais interessante. Por favor, não estão dizendo que são falsos de forma alguma, pois todos sempre partiram de questões bastante particulares. Mas são parciais demais para serem levados ao pé da letra.

Digo isso porque creio que nunca precisei tanto voltar à proposta (e ao motivo) original quanto agora. Se você leu o post sobre as mulheres que amei deve ter estranhado o quão breve fui ao falar de N. Afinal, se ela mudou tanto a minha vida como eu disse, deveria ter escrito mais sobre ela, não é?

A verdade é que tanta mágoa e tantas lembranças ruins estão associadas ao nosso relacionamento que eu não conseguiria escrever mais do que aquilo sem deixar isso transparecer. Mas eu não tinha noção do quanto guardar sentimentos negativos em relação a alguém poderia influenciar na minha vida e na minha relação com outras pessoas.

Acho que eu não sabia o que era ter um trauma de verdade até hoje. E eu preciso lidar com esse trauma agora! Não posso associar tanta coisa ruim a alguém que há pouco tempo eu tratava como a mulher da minha vida.

E a primeira ação que pensei para resolver esse trauma foi escrever novamente sobre ela. Mas dessa vez, sem mágoas e sem tristeza. Quero me lembrar das coisas boas que sentia e via nela, e o quanto isso fazia eu me sentir em paz.

Assim, espero perder o medo de encontrá-la na cidade, o incômodo de ler referências a ela na internet, a dor de ainda associar coisas do meu cotidiano ao tempo que passamos juntos… Principalmente, quero perder o medo de continuar vivendo.

Torça por mim, por favor.

O que não ficou para trás »

Dando sinal de vida

Sim, eu estou vivo! Mas o post seguinte está sendo bem mais difícil de escrever do que pensei.

Se eu sempre disse que este blog era uma terapia para mim, meu próximo texto vai levar isso ao pé da letra.

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Abraços.

Não consigo amar de novo

Sempre vi o amor como uma coisa muito bonita. É aquilo de que te faz feliz, tornando a vida leve e suportável. Ele une as pessoas, proporciona momentos inesquecíveis e todo mundo o deseja. Eu, inclusive.

Mas acho que esqueci como se ama. Lembro que era algo tão natural, simplesmente fluía. O amor fazia parte de mim e por mais que se escondesse às vezes, em pouco tempo reaparecia e me convencia de novo de que era melhor ser alegre que ser triste.

Meu Amor sumiu de novo, e não está muito disposto a voltar. Juro que não sei onde ele foi parar. Vai ver pulou da janela, hibernou no verão ou correu para muito longe e depois achou que seria uma boa idéia continuar correndo.

Desconfio que na verdade ele fugiu. Aquele covarde! Achou que seria fácil aumentar meus batimentos cardíacos, inundar meu cérebro de serotonina e abusar do Photoshop no mundo sem sofrer consequências? Ok, ok, eu entendo. Faria o mesmo.

Felizmente, ele teve um pingo de consideração antes de partir. Para não me deixar sem amparo, encarregou o Medo de me fazer companhia. Esse, um pouco desagradável, eu diria, mas bastante convincente. Grande fã de teorias conspiratórias, ele acredita que o Amor na verdade tinha planos infalíveis contra mim.

Odeio quando acho que ele está certo. E odeio mais ainda suas amizades. Esse Medo maldito vive encontrando a Solidão para tomar um chopp no meu juízo. Grande amigos que são, conversam besteira a noite inteira e criam cada idéia absurda que só rindo para não chorar.

Juntos, eles me convenceram de que eu sou nocivo. Que aparento ser carinhoso quando na verdade sou tão confuso que faria qualquer uma perto de mim sofrer. Também odeio quando ambos acertam.

Acho que sinto falta do Amor. Tivemos momentos bem difíceis juntos, mas até que era um cara agradável. Enquanto ele não volta, vou tentar aprender a lidar com essas minhas novas companhias.

Caro Amor. Se estiver lendo isso, favor voltar.
Sua presença se faz necessária com urgência.