Ser homem é outra coisa

Sempre me gabei de saber lidar bem com as mulheres. Mesmo quando criança, e ainda longe de aprender a magoá-las, elas já eram minhas maiores companhias.

Em casa, por exemplo, reinava a maioria feminina. As mulheres da casa, minha mãe e minha tia, formavam o meu caráter e de minha irmã nos apresentando o mundo com atenção e carinho. Assim, eu também aprendia a retribuir o tratamento e levei isso para a vida.

Quando passei a frequentar o colégio, naturalmente me sentia mais à vontade com as meninas da mesma sala. Talvez minha leve aversão à “obrigação” do futebol também tenha ajudado, mas o fato é que gostava de conversar com elas. Tinha a sensação de que o mundo era mais diverso na visão delas. Atentavam para coisas que eu não imaginava, sofriam precocemente com problemas inexistentes para mim e falavam de si com sinceridade para quem as desse ouvidos. Os outros garotos da escola se divertiam mais facilmente, sem dúvida, mas as competições fajutas já começavam a dar às caras e me transtornavam desde cedo.

Ser homem não é tão fácil quanto fazemos parecer. E talvez não o seja, principalmente, por culpa da nossa eterna e obrigatória preocupação em ter que provar a todo momento o quão homem somos de fato. Para isso, faremos qualquer coisa. Aceitaremos desafios esdrúxulos, discutiremos acirradamente pelos assuntos mais mesquinhos, faremos esforços sobre-humanos para impressionar quem mal conhecemos, responderemos a todo e qualquer desaforo, criaremos mini competições com completos estranhos em situações inapropriadas e, se falharmos em qualquer um desses itens, sempre cogitaremos a violência em suas inúmeras formas. Tudo isso pode ser engatilhado a qualquer momento através da lembrança ou pronúncia de uma sequência hipnótica: “homem que é homem…”

Homem que é homem é sempre o melhor, mais esperto e mais forte; é autoridade mesmo sem patente; gosta de esporte, cerveja, carro e relógio; sabe se impor com firmeza; tem a última palavra, a mão pesada, a coxa branca e o queixo quadrado; não tem vaidade, é feio, informal e não distingue mais de 9 cores; não tem frescura, não tem iPhone branco, não combina meia, não leva carrinho ao mercado, não tem filho gay, não chora, não brocha e nem nega fogo… Homem que é homem protege o seu ânus como um templário protegeria o Santo Graal e carrega entre as pernas uma árvore de carvalho secular muito, mas muito maior que todas as outras. E ai de quem negar isso!

Diluído entre tantos e tantos requisitos, está o item mais importante: homem que é homem sabe “domar” uma mulher. Essa lição é aprendida e reforçada em doses homeopáticas por toda a vida. E começa desde cedo, logo depois de sairmos das fraldas (isso quando sequer saímos). Familiares, amigos, colegas e completos desconhecidos, todos autodenominados mestres da “sedução”, colocam-se sempre em prontidão para passar adiante seus conhecimentos para qualquer trouxa que se deixe cair nas garras de uma mulher.

Assim, aprendemos a desmerecer seus sentimentos, a convencê-las a fazer o que não querem, a esconder os nossos “deslizes”, a distorcer os fatos ao nosso favor, a mentir quando descobertos e a convencê-las de que, não importa o erro que cometamos, elas (ou as anteriores) são as verdadeiras culpadas por agirmos assim. Então, basta cobrirmos tudo isso com as melhores intenções, até acreditarmos que realmente estamos certos, que o mundo é assim, que homens e mulheres estão em patamares diferentes e que somos meras vítimas das bruscas mudanças de humor desse bando de mulher maluca.

Afogado em um número crescente de regras, obrigações e expectativas, percebi que o fascínio que as mulheres tanto despertavam antes em mim havia se intimidado e dado lugar a uma coleção de atitudes grosseiras devidamente disfarçadas de falsos galanteios.

Eu não sabia lidar com elas coisíssima nenhuma. Estava apenas seguindo um manual gasto e com manchas amarelas escrito por outros tão egocêntricos quanto eu.

Foi preciso me reconhecer como machista para perceber que eu precisava mudar. E para aprender a ser um homem de verdade, resolvi fazer o que as mulheres que conheci sempre fizeram muito bem por mim: ouvir.

Dotado de nova postura, passei a conversar mais com todas elas, ler o mesmo que liam e a tentar ver o mundo por seus olhos. Queria aprender sobre suas experiências, interpretações, questionamentos e tudo o que não tinha dado oportunidade para que falassem. Eu precisava exercer a empatia que aquele manual parecia desconhecer. E me assustei bastante com tudo que ouvi.

Conheci histórias de mulheres que mudaram de cidade por terem sido violentadas, que desenvolveram depressão por anos de assédio moral do marido, que foram espancadas ao tentarem acabar um namoro, que desistiram de frequentar o cinema por cansarem de ver homens se “exibindo” para elas, que evitavam sair sozinhas mesmo que até a esquina de casa, que eram impedidas pela família de buscar independência, que receberam ameaças por anos de ex-namorados inconformados…

Saber desses casos por pessoas próximas a mim eram de fato suficientes para me colocar no lugar delas, mas não para me identificar com aqueles homens. Afinal, não me considero capaz de cometer atrocidades como essas. Mas explosões não acontecem do nada.

Eu sabia que havia magoado muitas mulheres. E por mais implacável que meu egoísmo tenha se apresentado então, o incômodo no fundo da memória persistia.

Os fantasmas voltavam em forma de palavras e lágrimas tão familiares quanto previsíveis. As personagens eram outras, o ambiente também. Mas, se chegava ao ponto de ser quase enfadonho passar pelos mesmos dramas, era sinal de que o problema estava no único elemento a se repetir. Eu precisava mudar. E o fiz.

Com novos olhos, enxerguei o meu desastre: o papel de “homem” que eu achava divertido seguir. Não só isso, eu acreditava que precisava seguí-lo. Com o apoio de quem amo — e até por quem amo — comecei a arrancar da minha personalidade tudo que remetesse a isso. Seguir esse padrão já havia atrasado minha vida o suficiente.

Assim, adotei uma nova ideologia compatível com a mudança que buscava. Uma tão deturpada pelo meu gênero que chega a ser engraçado a discrepância entre meu preconceito e o que aprendi sobre ela. Tornei-me um feminista.

Aprendi algo tão óbvio que é até vergonhoso ter que dizer, mas mulher também é gente. Todas elas. Não apenas quem nos pariu. Todas. E elas não deixam de ser gente porque as classificamos como vagabundas, barangas, musas, deusas, troféus ou fábricas de varões. Não precisamos cultuá-las nem rebaixá-las. Tratar como gente já é de bom grado.

Os frutos dessa mudança eu já colhi. 30 anos e tantos amores depois, posso dizer que pela primeira vez na vida eu não me sinto um garoto tentando ser adulado pela figura feminina mais próxima. Mas sim um homem de verdade tendo um relacionamento sincero com a mulher que ama. E, nossa, como isso me faz bem!

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