Trinta

Estou velho. Padeço de uma velhice intrínseca, própria, preguiçosa e prazerosa. Queria estar velho. E por muito tempo imaginei que nunca ficaria. Apeguei-me tanto aos primeiros anos que acreditei piamente que não acabariam. Sentia que a juventude me caía bem, mas que não me pertencia. Era apenas uma casca que nutria o velho que me tornaria. E a cada nova dor sentida com pressões exageradas nos tendões, cada ranger de ossos que se roçavam quando não deveriam sequer se tocar, cada camada de pele arrancada com quedas, tropeços e insolações, o velho resmungava lá de dentro tentando adiar seu despertar. Desculpa, velho, mas ansiava conhecê-lo.

Tinha 3 anos. O sol queimava o barro do telhado da casa de minha avó com um ódio não correspondido. As janelas e portas escancaradas deixavam entrar um vento forte que secava o suor das quase vinte pessoas de dentro da casa. Pais, tios, primos e avós maternos riam e comiam sem parar enquanto faziam graça uns com os outros. Às vezes se engasgavam quando trocavam a ordem, e aí eu que ria. “Adultos falam alto porque são grandes. Por isso minha tia baixinha falava mais baixo.”

Eu brincava sentado no chão no meio da sala com meu brinquedo favorito: um gravador. Aprendi a usá-lo em 2 minutos e não queria mais nada da vida. O mundo sacudia ao meu redor a cada gargalhada de meus tios gigantes e a cada passo pesado que desviava da minha cabeça. Eu narrava todos os acontecimentos para o gravador e ria sozinho da minha própria voz. Descrevia a vaca que passava pela janela balançando o sino no pescoço, a lagartixa que se esgueirava pelo canto da parede e causava nojo em alguma das tias que a viam, o cheiro de cigarro da mesa verde onde se aglomeravam os homens da casa, e imaginava o próximo prato de comida que minha avó traria. Torcia pra ela fazer “bruaca” só por causa do nome.

Quando me entediei de brincar sozinho, saí pela casa pedindo para cada um falar alguma coisa para o gravador. Falavam, eu gravava, depois repetia o que diziam imitando cada um. Conheci a impaciência adulta quando um dos tios gritou: Para, que DROGA, Rafael! Corri rapidinho para o móvel central, encostei o gravador, segurei o microfone com as duas mãos e falei em voz crescente para o aparelho: Tio Bill falando: dooooga. “Quando grito, viro adulto.”

Tinha 10 anos. Perguntavam-me com frequência o que queria ser quando crescer e eu dizia: motorista de caminhão. Já tinha aprendido que as respostas que causavam risos ou nervosismo eram sempre as melhores. Mas às vezes respondia “professor” para seguir os pais. Também sabia que agradar aos pais era importante. E foi essa a resposta que escolhi para o casal desconhecido que compartilhavam conosco a área da piscina do prédio.

O filho deles era mais novo que eu e brincava com um submarino de plástico na borda da piscina, pois ainda não sabia nadar. Eu, com anos de experiência em natação em açudes no interior, fui encarregado por meu pai de cuidar do filho alheio. O peso da responsabilidade me agradava, mas a teimosia da criança me aborrecia. Ficava no raso, mas corria pela borda para o lado fundo da piscina quando eu me afastava dele para nadar. Cansado de ser responsável, saio da água e fico ao lado do meu pai ouvindo a conversa. Duplamente entediado, volto para a piscina e não encontro mais o garoto. Vejo o submarino de plástico boiando a poucos palmos da borda oposta, mas nem sinal do filho do casal por perto. Estico o pescoço enquanto me aproximo da piscina e mergulho ao avistar a criança debaixo d’água. Submerso, tento segurar seus braços, mas ele me puxa pelos cabelos enquanto se debate. Abaixo a cabeça, apoio-o com as duas mãos e o levanto para fora da água e ouço um grito abafado. Ele cai novamente se debatendo e eu não consigo mais segurá-lo. Meu pai mergulha, consegue arrancá-lo da água e eu dou num sinal de que estou bem. Os pais foram os últimos a chegar e abraçaram o filho que desengasgava tentando respirar. Entrego o submarino para o menino com os olhos roxos e vejo-os ir embora. Volto para casa enrolado numa toalha e, quando meu pai conta à minha mãe que salvei uma vida, digo: Quando crescer, quero ser bombeiro. “Adultos cuidam dos outros.”

Tinha 17 anos. Entrara na faculdade e achava que finalmente poderia dar o primeiro passo para ser adulto: ter um emprego. A associação tinha sido feita presenciando por anos os pais workaholics. Aquilo que os ocupava por tanto tempo parecia dar-lhes algum prazer, e eu também queria. Felizmente, apenas a matrícula num curso superior já era suficiente para conseguir um estágio numa agência de publicidade. E impressionar aqueles senhores que ainda se acostumavam aos computadores era simples para qualquer espécie da geração Y. Meia dúzia de atalhos do Photoshop decorados somados à incrível habilidade de digitar sem olhar para o teclado e eu já estava apto a trabalhar no pior horário do dia: 17 horas, quando todos os clientes se lembravam de que tinham prazos e os veículos reforçavam que esses prazos já estavam acabando.

E é claro que incêndios não poderiam ser apagados sem a devida supervisão dos donos da agência, figuras lendárias da publicidade cearense conhecidas por seus infinitos cigarros e excentricidades. A sócia era a figura mais presente em nossa sala. Seu porte físico colossal casava perfeitamente com sua voz turbulenta e carisma avassalador. Por vezes, plantava-se atrás de minha cadeira como um monumento egípcio e conduzia meu trabalho com a habilidade de um flanelinha do centro da cidade, cuspindo (literalmente) jargões que ela própria criava e que nós ajudávamos a disseminar. Um dia, entre respingos de saliva e vultos de gestos bruscos que surgiam entre o monitor e minha vista, eu tentava finalizar um trabalho que já se estendia pela noite de sexta-feira quando senti o inesperado peso de uma mão no ombro.
— Meu amor! — O erre vibrava como um diapasão. — Quantos anos você tem?
— Dezessete.
— 17 anos e está aqui até essa hora ouvindo meus gritos? Você é doido? Vá comer buceta, rapaz!
“Adultos trabalham, mas nem tanto.”

Tinha 25 anos. Acreditava já ser gente grande e abraçava com força todas as responsabilidades possíveis encontradas no caminho. Acordava cedo, fazia a barba, batia ponto, reclamava do trabalho, engolia a comida, dava ordens, negociava prazos, lidava com clientes, aturava grosserias, contraía doenças, brigava no trânsito, entrava em pânico. Era um homem. A mistura da obrigação de um emprego fixo com a aventura do empreendedorismo e o experimento como professor universitário pareciam ser a fórmula para me tornar o que eu queria ser. Só não sabia o que era ser o que eu queria. Em pouco tempo, tudo passou a ser irritante. Acordar cedo era um tormento e dormir era meu único objetivo para passar o dia. A cidade, as pessoas, o clima… O mundo parecia tentar me expulsar dele e não encontrava em mim sequer alguma resistência. Os empregos se foram, a empresa fechou, as aulas acabaram e eu fui embora. Não do mundo, mas da cidade. Para o mundo, ainda busco alternativa. “…”

Tenho trinta anos. Assim mesmo, por extenso. E achei que deveria cumprir uma “tradição” recém criada por mim ao chegar nessa hora. Como meu pai fez na época dele, resolvi fazer na minha: li A Idade Da Razão, de Jean-Paul Sartre, e escrevi este texto. Encontrei-me na obra inteira. Na negação do manual social do protagonista Mathieu, na inconsequência tardiamente infantil de Boris, na angústia vazia de Ivich, na sensação de tempo perdido de Lola e no desprezo gratuito e nem sempre velado de Daniel. Tornei-me um livro. Percebi que havia sonhado com o que seria, sido o que queria, e descoberto o que não quero. E não quero ser o mesmo. Não quero a burrice juvenil que ainda me contamina, o descontrole emocional dos que pouco viveram, o idealismo intelectual meramente esportivo. Não quero mais precisar. Também não quero mais o despropósito das obrigações adultas, o encarceramento diário de prazeres, as tantas regras para colocar tudo nas caixas que me entregaram. Não quero mais pretender ou parecer. Quero ser. E ser velho me soa bem. O velho circulou por ideologias, balançou várias bandeiras, conheceu tipos e não-tipos, misturou tudo e escolheu o que lhe servia. Desistiu de caminhos, escolheu as lutas que valem o esforço, aceitou as marcas na pele e encontrou seu lugar e sua companhia. Talvez volte à superestimada juventude quando a razão partir, arrancada por um filho que espero ter, por mudanças que ainda espero fazer, ou por sensações que nem imagino sentir. A idade da razão já me rodeava. Só espero fazer jus a ela.

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A jornada de mais um herói

Este foi o 1º conto que escrevi na vida e a 1ª vez que participei de algum concurso literário. Não ganhei (óbvio), mas contei com a divulgação e apoio de muita gente querida por quem serei eternamente grato. Enquanto não tem texto novo, deixo aqui registrado este, que escrevi quando fiz o curso do mestre Eduardo Spohr, sobre meus já longínquos 3 primeiros meses no Rio de Janeiro.

A Jornada De Mais Um Herói

Uma grande sacanagem divina. Era assim que Rafael descrevia a escolha do acaso para o seu local de nascimento. Definitivamente não gostava de Fortaleza. Sabia de seus atrativos como cidade turística, mas era muito limitada quanto a assuntos de seu interesse como cinema, teatro e música. Quanto mais dizia querer sair da cidade, mais rabugento se tornava. Já era um velho ranzinza aos 26 anos.

Apesar da sua postura mal humorada no dia-a-dia, tentava parecer ser alguém mais agradável na internet. Escrevia com frequência em seu blog e em sua conta no Twitter, e angariava seguidores com certa facilidade. Ao mesmo tempo, procurava conhecer pessoas novas o tempo todo, de preferência de outras cidades e com outras culturas.

Foi procurando alguém assim, diferente, que conheceu a carioca. Na sua terra, as mulheres não eram assim. Marrenta, geniosa, com olhos verdes e pele laranja, ela chamou a atenção de Rafael imediatamente. E, para sua surpresa, a atração foi recíproca.

Com o romance acontecendo, ficou claro que ela não era apenas alguém interessante, mas um símbolo de um mundo novo do qual ele queria fazer parte. Queria saber o que era morar no Rio de Janeiro, andar pela praia a caminho do trabalho, ter sua vaidade incentivada, sentir-se à vontade em qualquer ambiente com camiseta e bermuda e ser feliz na terra em que havia escolhido viver. O pedido então foi feito, iriam morar e namorar na mesma cidade.

Quando percebeu a mudança que estava fazendo, a insegurança surgiu. Era fato que Fortaleza não era seu lugar, mas era onde ele havia nascido. Apesar de reclamar de sua vida atual, sabia que era um disfarce para a óbvia saudade que sentiria. Além disso, teria que cuidar do seu próprio espaço, mas sequer sabia fritar um ovo ou esquentar miojo. Era uma criança adulta protegida e sabia disso. Mas, como sua mãe dizia, precisava “virar gente”.

Fez as malas e embarcou para a terra de Vinícius de Morais. Foi recebido de braços abertos por sua namorada e pelo pai dela. Chamava-o de mestre. Era um senhor de aparência caricata e temperamento explosivo. Havia viajado o Brasil inteiro pela marinha e assumiu uma dívida com a vida ao contar inúmeras vezes com favores de estranhos que o hospedavam em suas casas. Fez questão de fazer o mesmo por ele.

O relacionamento entre os dois acabou se tornando de mestre e discípulo. Rafael era visivelmente despreparado para a vida no Rio de Janeiro, e o mestre tomou para si a responsabilidade de criá-lo. Conversavam sempre sobre as diferenças entre as duas culturas e as peculiaridades dos cariocas e fluminenses. A acirrada disputa entre classes, a agressividade e expansividade típicas, o individualismo consequente de uma cidade com o dobro da população de sua antiga morada… O Rio era desmistificado na mesa de jantar enquanto seu maior desafio ainda era de encontrar um emprego.

Duas semanas após a mudança, recebeu seu primeiro chamado de trabalho. Nunca havia saído sozinho pela cidade, além de ter se tornado extremamente tímido pela expansividade dos nativos. Brincavam com seu sotaque, seu comportamento, seu jeito de andar e suas reações. Não sabia sequer se portar no Rio sem ser visto como um estrangeiro e agora precisava convencer alguém de que era o melhor para a vaga.

Estava sozinho em casa, por isso, usou a internet mais uma vez em seu favor. Descobriu a rota para chegar à entrevista e saiu de casa ansioso. Entrou no ônibus e sentou próximo à janela. Mal piscava enquanto observava os prédios antigos do Catete, a luz forte do sol iluminando o mar da Praia de Botafogo, os detalhes do gesticular carioca como quando aproximavam a mão da boca antes de falarem uma “parada sinistra”, as discussões acaloradas entre casais que ainda assim se amavam…

Teve sorte. Tinha o conhecimento para o cargo, estavam com pressa (ele também) e foi aceito de imediato. Foi apresentado à equipe e estranhou as panelinhas evidentes mesmo em um ambiente sem paredes. Foi recebido com um pé atrás pela maioria, mas o “social mídia” da empresa foi mais simpático com ele. Era a pessoa mais azarada que havia conhecido.

— Vai fazer o que no final de semana?
— Ver meus filhos. Vou aproveitar que minha ex-mulher tá de bom humor.
— Tu já tens filho, rapaz?
— Três! Os três eu fiz das vezes que acabei o namoro.
— Fez com outras, então?
— Não, com ela mesmo. Ela ficava mais fértil quando a gente brigava.

Seu primeiro dia de trabalho havia dado uma certa tranquilidade a Rafael. Teria agora o dinheiro para alugar um apartamento e não depender mais da boa vontade dos outros. Mas não demoraria para a cidade mostrar seu pior lado.

No mês seguinte, enquanto aguardava o ônibus para o trabalho, uma mulher surgiu na janela do prédio da frente eufórica e aos gritos. Pedia socorro, mas não dava para saber o problema que tinha. Até que surgiu um homem armado que, em segundos, puxou a senhora para dentro de casa.

Houve uma comoção na rua e Rafael meteu a mão no bolso para tirar o celular e ligar para a polícia, mas percebeu que não sabia onde estava. Não sabia o nome da rua, apenas que era ali onde pegava o ônibus para o trabalho. Como iria instruir a polícia assim? E se tivesse algum informante do homem armado na rua? Ele perceberia a ligação e tentaria tirar seu celular? Tentou ver se alguém estava fazendo algo a respeito e seu ônibus chegou na hora. Entrou e foi para o trabalho se sentindo um incompetente. O medo alarmado do Rio de Janeiro apareceu pela primeira vez, e não conseguiu fazer nada a respeito.

Precisava, então, sentir-se útil novamente, e a oportunidade veio no trabalho. Um serviço de última hora surgiu e precisava ser feito em tempo recorde. Tomou a responsabilidade para si e dispensou qualquer ajuda para não atrapalhar o fim de semana de nenhum colega.

Porém, no mesmo dia, a carioca o informou de um apartamento para alugar num bairro próximo. Sabia que poderia fazer seu trabalho com agilidade, por isso, poderia se dar ao luxo de visitar o lugar e adiar sua execução. Correu para Botafogo e conversou com o proprietário.

— Gostou do apartamento?
— Adorei! Todo reformado, mobiliado, perfeito para mim.
— Como vai fazer? Vai ser com fiador, seguro-fiança?
— Senhor, eu gostaria de um fiador, mas sou de Fortaleza e não conheço quase ninguém no Rio.
— Ah, você é de Fortaleza? Eu e minha mulher também somos.
— Que bom! Você aceitaria um fiador de lá, então?
— Não, não. Mas posso te dar umas dicas de como conseguir o seguro-fiança.

Ao sair do apartamento, viu as várias ligações de seu chefe em seu celular. Correu para casa para conseguir terminar o trabalho a tempo. Só depois, quando retornou as ligações, percebeu seu erro. O chefe não tinha sido claro quanto ao prazo e, pela demora, já havia contratado um freelancer para garantir a entrega. Seu trabalho foi inútil e resolveu conversar com seu chefe sobre o ocorrido.

— Rafael, você é a pessoa mais difícil de lidar da empresa. Se você não tinha condições de fazer o trabalho, por que dispensou outros da equipe para ajudá-lo? Você tem uma postura que me irrita, pois sempre rebate as minhas ordens. Tem problemas com autoridade e eu não gostaria nem de estar tendo esta conversa pelo quanto que isso me transtorna.

Ainda sem palavras pelo sermão, recebeu uma ligação da imobiliária negando seu pedido de seguro-fiança. Seus planos estavam todos dando errado. Não gostou da forma como foi tratado pelo chefe e revoltou-se por depender da boa vontade da imobiliária para começar a viver. Precisava se sentir bem com seu trabalho, com sua vida e com seu lar. Mas nada disso estava funcionando como imaginava.

Era a hora de usar as armas que tinha. Aproveitou sua visibilidade na internet e anunciou sua procura por um novo emprego enquanto negociava com o locador uma solução para o dilema do apartamento. Não demorou para um de seus amigos virtuais indicá-lo para uma vaga próxima de onde estava. Mas não seria tão simples assim.

O Rio de Janeiro novamente estava pronto para atrapalhar sua vida. A cidade que ele havia escolhido para si resolveu derramar toda a chuva que planejara produzir para os próximos seis meses em apenas um dia. Saiu do trabalho e se deparou com um rio no lugar da rua. A entrevista era a seis quadras de onde estava, mas não passava ônibus ou táxi ali, e mesmo que tivesse ao menos um guarda-chuva pouco ajudaria.

Tirou os tênis e a camiseta, dobrou a barra da calça e foi enfrentar o dilúvio. A rua irregular fazia o nível da água aumentar no caminho. A chuva forte refratava as luzes da cidade atrapalhando sua visão, enquanto a correnteza que se formava na altura da cintura o empurrava pela calçada e contra os muros. Quando cruzou uma avenida, era só subida dali em diante e foi se tornando mais fácil chegar onde queria.

Tocou a campainha completamente molhado, descalço, segurando os tênis, com a calça dobrada e camiseta sobre o ombro. Diante do olhar assustado de quem o recepcionou, disse:

— Eu disse que viria, faça chuva ou faça sol. – Afirmou com um olhar triunfante.

Acordou no dia seguinte com uma ligação. Era o locador.

— Rafael, resolvi fazer o seguinte contigo. Pode esquecer essa história de fiador e seguro-fiança. Você hoje está na mesma situação em que eu estive há 40 anos quando sai de Fortaleza e cheguei no Rio. Eu não posso deixar um conterrâneo meu na mão assim. Você me parece ser um garoto correto, então eu vou confiar em você. E se meu Padim Ciço deixar, nada de errado vai acontecer.

Alegria e alívio misturados a um pouco de vergonha tomaram conta deu seu peito. Nunca esperou essa atitude de alguém de sua cidade, de onde ele tinha saído com tanto ranço. Não poderia guardar mágoas de sua terra natal, por mais que estivesse agora onde havia escolhido estar.

Enquanto seus conceitos mudavam, precisa correr para o trabalho. Queria aceitar a proposta do novo emprego e sair do atual. Encontrou seu chefe na porta e foi logo dizendo:

— Chefe, eu estou saindo. Esse não é o ambiente em que quero trabalhar e aquela não era a forma que eu gostaria de ser tratado. Estou indo para um lugar com gente disposta a apostar no meu trabalho em vez de apenas me dar ordens e querer que eu as siga do seu jeito. Desculpe pela dor de cabeça que eu aparentemente causei, mas isso me ajudou a perceber que não é aqui que eu quero estar.

Dias depois, mudou-se para o seu espaço. O novo emprego tinha um ambiente agradável, sem tanto peso nas hierarquias e com foco em coisas que o agradavam. Além disso, seu relacionamento, que possibilitou todas essas mudanças, seria “normal” pela primeira vez, sem distância e sem favores. Rafael havia conseguido começar uma vida nova, com rumos decididos por ele. Estava, finalmente, virando gente.

Quem sou eu, afinal?

Nunca entendi muito bem quando buscava uma orientação para alguma dúvida da vida e ouvia: seja você mesmo. Sempre questionava se o mentor de ocasião se referia a quem ele acreditava que eu era ou quem eu realmente era. Se fosse a primeira opção, eu podia me tornar essa pessoa?

Na dúvida entre ser e parecer, sempre tentei parecer ser. Assim, desde criança desempenhava papéis que me favoreciam de alguma forma. Depois de tentativas frustradas de ser o Homem-aranha (o que me rendeu uma escrivaninha na cabeça quando tentei grudar em baixo dela) ou o Karatê Kid (hoje estou mais pra Sr. Miyagi), comecei a entender que eu poderia ser diferente para pessoas distintas.

Aos 10 anos, por exemplo, promovi algo que ninguém esperaria de mim. Era época de festa junina e os alunos haviam se dividido entre as barracas de comidas típicas e a dança na quadrilha. Depois da apresentação (sim, eu era da dança) fui fazer companhia aos meus colegas nas barracas montadas na quadra esportiva.

A gente começou com aquelas brincadeiras de perguntar “você viu aonde o Fábio foi” com a boca cheia de farofa. Depois era pipoca no olho dos outros e na roupa das meninas. Não demorou para eu pegar uma colher de arroz doce e sapecar na cara do outro, esquivando, em seguida, de uma mão cheia de cuscuz.

Em segundos, as barracas viraram trincheiras e os pais e avós corriam arrependidos de terem se reproduzido. Corri sozinho para o meio da quadra e fui atingido por uma canjica. Avistei Océlia, a coordenadora, entrando na quadra fumaçando de raiva e vindo em minha direção. Não pensei duas vezes:

— Océlia! Olha só o que fizeram comigo! — Falei com minha cara de bom moço.
— Sai da quadra, Rafael. Eu vou acabar com essa palhaçada agora.

Entre suspensões e puxões de orelha, escapei ileso. Ninguém ali acreditaria que um dos melhores alunos do colégio tinha sido catalizador da maior guerra de comida do bairro.

A aventura me rendeu uma história engraçadinha e uma crise de identidade eterna, agravada com a chegada da adolescência. Nessa época, fiz amizade com um cara “experiente” (o máximo que a juventude permitia) em lidar com o sexo oposto.

Esse amigo me contou seu segredo: homem não pode ter personalidade definida, deve ser o que a mulher espera que ele seja. Eu não sei se o mais absurdo é a frase em si ou o fato de ter tanta gente egocêntrica ao ponto de passar a vida filtrando pessoas de acordo com suas próprias expectativas.

Era fácil, a vítima soltava a característica que mais gostava e eu fingia ser daquele jeito. Espontâneo, discreto, vaidoso, engraçado, decidido, misterioso, qualquer coisa que eu ouvisse ser a fórmula de como um homem deveria ser eu simulava.

Até que me vi fazendo isso em qualquer relação. Eu era o mais capacitado na entrevista de emprego, o namorado perfeito para as amigas da namorada, o aluno promissor na escola, o fígado de ferro na faculdade, ou o oposto de tudo isso só para ver o acontecia. Mas nunca soube quais desses eu realmente era.

Minha última tentativa de ser outra coisa foi quando resolvi ser carioca. Sim, eu achava que alterar meu nascimento seria fácil. Na teoria até que era. Bastava trocar ‘s’ por ‘x’, encaixar um ‘i’ no meio de algumas palavras, ir à praia e à academia o máximo de vezes possível na semana, apagar “arre égua” do meu dicionário e pronto, o projeto menino do rio estaria completo, certo? Incrível como preconceito simplifica tudo.

Mas equilibrar minha intenção com a expectativa alheia passou a me irritar. Parei num limbo onde meu sotaque não tem identidade, minha aparência não é estereótipo de nenhum dos dois estados, e as pessoas ao meu redor são cada vez mais estranhas.

Hoje apenas sei que não quero ser como elas, ou o que esperam que eu seja. Não quero que pensem que sei forró por ser do Ceará, que gosto de praia por estar no litoral, que desvio de bala por morar no Rio, que sou católico por ser brasileiro ou que tenho uma TV porque todo mundo tem. Não sou todo mundo. Ninguém é.

Viver outras vidas durante a única que tenho foi divertido, mas estou meio cansado de pretender ser. Só não sei bem o que sobra se tirar tudo o que sei que não sou.

PS: A idéia desse texto surgiu deste vídeo.

E se…

E se todos os planos que fiz tivessem dado certo? Se eu tivesse passado no vestibular para informática, não para publicidade. Se tivesse feito faculdade em Campinas, não em Fortaleza. Se tivesse aprendido todas as línguas que um dia quis. Seria um nerd esquisito falando mandarim e puxando o erre. Esse seria eu?

E se tudo tivesse dado errado? Se eu não fosse formado até hoje, teria inventado algo para ganhar dinheiro. Estaria vivendo de arte, como tenho tanta vontade. Teria me dedicado mais ao que me dá prazer e receberia uma ajuda dos pais. Eu seria assim?

E se eu tivesse amado mais quem me amou e menos quem eu amei? Talvez nunca tivesse saído da minha cidade. Estaria casado, com um filha a cara da mãe, um trabalho estável e preocupado com o que jantar. Leria mais e não veria tantos filmes. Reclamaria da violência enquanto comprava um som novo para o carro. Eu, logo eu?

E se eu não tivesse amado ninguém? Preservaria minha irresponsabilidade adolescente e me mandaria pelo mundo. Moraria em São Paulo, Porto Alegre, João Pessoa, Áustria, Miami ou em todas as cidades ao mesmo tempo. Trabalharia pela internet de qualquer cafeteria e não teria raízes em lugar algum. Seria livre como sonhava ser. Eu?

Penso nas relações que nunca tive e onde elas poderiam ter me levado. E se tivesse ficado com a menina de sorriso tímido no colégio, estaria agora em Minas com ela? E se tivesse puxado assunto com aquela blogueira há anos, seria um “social media” como tantos que conheço? E por que mesmo não investi mais na loirinha do meu prédio que hoje vive no sul?

Penso também nas várias profissões que pensei em seguir. Quando era criança, eu salvei a vida de uma garoto mais novo que estava se afogando na piscina do meu prédio. Mergulhei e o tirei da água, com a ajuda do meu pai, quando ele já agonizava com a falta de ar. Sonhava, claro, em ser bombeiro depois disso, para salvar outras vidas. E se tivesse levado à sério? Ou se tivesse aprimorado o desejo e me tornado médico? Talvez assim eu tivesse mais firmeza nas mãos e autoconfiança, imagino.

Sonho acordado com os trilhos paralelos à minha vida. Quais desvios eu ignorei e em quais entrei inesperadamente? Hoje entendo quem acredita em destino. Deve ser muito gostoso acreditar que o caminho que você está é sempre o certo. Mas, estando onde estou, aprendi a encher a minha existência de perguntas. Portanto, será?

Será que em algum desses trilhos eu poderia ter cometido menos erros, vivido mais em menos tempo, escrito diariamente em um blog menos melancólico, tomado decisões com precisão e certeza, ter me tornado alguém mais útil. Ou poderia ser um inútil completo! Afinal, chances iguais.

Consigo aceitar que não existam certos e errados na vida. Aprendi com as pessoas dos outros vagões que esse maniqueísmo tão “lógico” não é bem uma verdade. Mas por que em alguns momentos o mundo parece esfregar na minha cara o que eu poderia (ou deveria) estar vivendo, só pela diversão de fazê-lo?