Pausa

– Açúcar ou adoçante? – perguntou o atendente da cafeteria com incomum cordialidade. Naquele calor, com quem o ar-condicionado travava uma batalha perdida, a má educação era compreensível. Mas o código social não previa tamanha disposição acima dos 40°. Aquela gentileza me deixou sem resposta. Não sabia que gosto queria sentir naquele dia.

Ignorei o açúcar que chegou à mesa. Veio numa cerâmica pequena, pouco maior que a colher que a acompanhava. Tudo naquele lugar era em menor proporção. A cadeira de madeira com as juntas frouxas apoiavam minha coluna com esforço. A mesinha de granito deixava escapar meus cotovelos nas bordas, e controlava meu desleixo cutucando minhas pernas com seus ornamentos de ferro. Mas as paredes em amarelo claro, e com prateleiras de doces, compensavam a rigidez da minha e das outras 5 mesas, tornando o ambiente agradável o suficiente para uma pausa num dia útil.

O doce de leite na prateleira do meio roubou a atenção que meu café antes usufruía. A saliva que banhava minha língua fingia trazer aquele gosto bem comum até pouco tempo. Tão bom que lembrei de quando era usado como moeda de troca por minha mãe. Um cubinho de doce se guardasse na gaveta as revistas em quadrinhos espalhadas pela cama. Dois se terminasse o dever de casa. Anos depois aprendi que nosso pequeno acordo tinha nome: behaviorismo. Nunca uma palavra tão feia me pareceu tão gostosa.

Os salgados vieram com o tempo. Pizzas, hambúrgueres, sanduíches e frituras nutriam músculos e ensebavam a pele. Mas minhas comidas preferidas não eram mais um prêmio por bom comportamento, eram um posicionamento social.

Comer “besteiras”, por exemplo, deveria ficar para trás, assim como a lancheira do Chapolin. Pegava mal, né?

A quebra era tão brusca que muitos diziam que doce e salgado sequer podiam ser misturados. Aparentemente, estava escrito em letras miúdas na 2ª tábua dos 10 mandamentos. E se esse aparte não fosse suficiente, ainda inventavam que salgado era masculino e doce feminino. Mundos completamente diferentes separados pela língua. Assim, o proibido ganhou gosto.

Distraído, mergulhei meu dedo no café e o susto me trouxe de volta. As lembranças se afastaram e pareciam já estar há décadas de distância. E, de fato, estavam.

Olhei ao redor e vi que não era o único nostálgico do lugar. Ao lado, um rapaz mais novo (apesar da barba generosa) tomava chá e desenhava num caderno com fecho de barbante. Próximas à janela com uma horta falsa, duas amigas executivas se divertiam tomando café coado na hora levantando o dedinho ironicamente. E se contorcendo entre as mesas em direção a saída, uma senhor tatuado tirava do bolso um celular com uma câmera analógica na capa.

Tudo era muito familiar. Esquisito, mas familiar.

Mas o líquido já inerte em minha xícara ainda guardava uma lembrança. Um amigo que, para meu espanto, nunca usava qualquer açúcar ou adoçante. Tomava café puro, e era sempre repreendido pela mãe da mesma forma. “Meu filho, de amarga basta a vida.”

Vivi o suficiente para gostar do amargo? Na dúvida, tomei o café frio em um único gole.
E voltei ao trabalho.

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Pensando demais

“Então, esse é o seu filho?” — E me estendeu a mão. Para que ela foi fazer isso?

Um programa de televisão que estava assistindo à tarde havia me ensinado como cumprimentar pessoas. Parecia fácil. Parado diante de alguém a quem devo educação, era só estender a mão oposta à oferecida, encaixar o espaço entre o polegar e o indicador no mesmo local da mão alheia e subir e descer o braço não mais que uma vez. A apresentadora deixou claro que duas vezes seria demais.

Não sei bem porque eu estava assistindo a isso. Imagino que seja pelo fato da minha vida de recém adolescente me garantir muito tempo livre. E de fato não tinha muito o que fazer depois de chegar da escola. Estudar em casa não era meu forte, gostava de assistir aula. Além disso, dever de casa é para os fracos.

Ela continuava com o braço esticado apontado em minha direção. Percebi o quanto a televisão mascarava a vida real. A primeira pessoa do dia que resolveu apertar minha mão não se deu ao trabalho sequer de levantar da cadeira do bar e se posicionar à minha frente. O cotidiano era cruel e criava situações pitorescas como essa. E se tinha que ter jogo de cintura para sair de situações assim.

Eu sempre quis usar essa palavra: pitoresca. Ri com o canto da boca quando a li pela primeira vez num livro d’Os Karas. Pedro Bandeira era o autor. Acho que sim. Achei ela engraçada, não sei por quê. Pi-to-res-ca.

Ela levantou uma sobrancelha e uma gota de suor escorreu pelo meu rosto. Os outros quatro alunos de meu pai, que a acompanhavam, franziam a testa e mantinham um sorriso sem mostrar os dentes. Eu precisava fazer alguma coisa. Mas qual mão eu deveria usar? As chances de acertar eram as mesmas de errar, não dá para escolher assim tão fácil.

Ela estava perpendicular à mim, com o braço direito apoiado na cadeira ao lado e a palma da mão exposta levemente inclinada. Meu pai, ao meu lado, apertava meu ombro com carinho, mas aumentava devagar a pressão. Tirei as mãos dos bolsos e ameacei um movimento com o lado direito. Mudei de idéia no caminho e voltei atrás para pensar melhor.

Eu morria de medo de fazer papel de idiota a qualquer hora. Principalmente diante de adultos. Isso me garantia uma timidez digna de pena. Porém, tinha lido numa revista da minha irmã que meninas gostavam de caras tímidos, pois pareciam misteriosos. A julgar pelo número de pretendentes, elas estavam mentindo descaradamente. O que diriam ao saber que o maior mistério da minha vida era saber como cumprimentar alguém sem parecer um “sem jeito”?

Ela sacudiu a mão como quem tenta dar corda num brinquedo parado. O coração se debatia em meu peito de tão nervoso que estava por mim. Senti suar a mão esquerda e encarei como uma dica do meu corpo para a minha dúvida. Fiz minha aposta. Estiquei o braço esquerdo, apertei sua mão, subi e desci o braço não mais que uma vez. Duas vezes seria demais, né?

“É a outra.” — Ela falou baixinho. Troquei as mãos sem ninguém perceber.

A jornada de mais um herói

Este foi o 1º conto que escrevi na vida e a 1ª vez que participei de algum concurso literário. Não ganhei (óbvio), mas contei com a divulgação e apoio de muita gente querida por quem serei eternamente grato. Enquanto não tem texto novo, deixo aqui registrado este, que escrevi quando fiz o curso do mestre Eduardo Spohr, sobre meus já longínquos 3 primeiros meses no Rio de Janeiro.

A Jornada De Mais Um Herói

Uma grande sacanagem divina. Era assim que Rafael descrevia a escolha do acaso para o seu local de nascimento. Definitivamente não gostava de Fortaleza. Sabia de seus atrativos como cidade turística, mas era muito limitada quanto a assuntos de seu interesse como cinema, teatro e música. Quanto mais dizia querer sair da cidade, mais rabugento se tornava. Já era um velho ranzinza aos 26 anos.

Apesar da sua postura mal humorada no dia-a-dia, tentava parecer ser alguém mais agradável na internet. Escrevia com frequência em seu blog e em sua conta no Twitter, e angariava seguidores com certa facilidade. Ao mesmo tempo, procurava conhecer pessoas novas o tempo todo, de preferência de outras cidades e com outras culturas.

Foi procurando alguém assim, diferente, que conheceu a carioca. Na sua terra, as mulheres não eram assim. Marrenta, geniosa, com olhos verdes e pele laranja, ela chamou a atenção de Rafael imediatamente. E, para sua surpresa, a atração foi recíproca.

Com o romance acontecendo, ficou claro que ela não era apenas alguém interessante, mas um símbolo de um mundo novo do qual ele queria fazer parte. Queria saber o que era morar no Rio de Janeiro, andar pela praia a caminho do trabalho, ter sua vaidade incentivada, sentir-se à vontade em qualquer ambiente com camiseta e bermuda e ser feliz na terra em que havia escolhido viver. O pedido então foi feito, iriam morar e namorar na mesma cidade.

Quando percebeu a mudança que estava fazendo, a insegurança surgiu. Era fato que Fortaleza não era seu lugar, mas era onde ele havia nascido. Apesar de reclamar de sua vida atual, sabia que era um disfarce para a óbvia saudade que sentiria. Além disso, teria que cuidar do seu próprio espaço, mas sequer sabia fritar um ovo ou esquentar miojo. Era uma criança adulta protegida e sabia disso. Mas, como sua mãe dizia, precisava “virar gente”.

Fez as malas e embarcou para a terra de Vinícius de Morais. Foi recebido de braços abertos por sua namorada e pelo pai dela. Chamava-o de mestre. Era um senhor de aparência caricata e temperamento explosivo. Havia viajado o Brasil inteiro pela marinha e assumiu uma dívida com a vida ao contar inúmeras vezes com favores de estranhos que o hospedavam em suas casas. Fez questão de fazer o mesmo por ele.

O relacionamento entre os dois acabou se tornando de mestre e discípulo. Rafael era visivelmente despreparado para a vida no Rio de Janeiro, e o mestre tomou para si a responsabilidade de criá-lo. Conversavam sempre sobre as diferenças entre as duas culturas e as peculiaridades dos cariocas e fluminenses. A acirrada disputa entre classes, a agressividade e expansividade típicas, o individualismo consequente de uma cidade com o dobro da população de sua antiga morada… O Rio era desmistificado na mesa de jantar enquanto seu maior desafio ainda era de encontrar um emprego.

Duas semanas após a mudança, recebeu seu primeiro chamado de trabalho. Nunca havia saído sozinho pela cidade, além de ter se tornado extremamente tímido pela expansividade dos nativos. Brincavam com seu sotaque, seu comportamento, seu jeito de andar e suas reações. Não sabia sequer se portar no Rio sem ser visto como um estrangeiro e agora precisava convencer alguém de que era o melhor para a vaga.

Estava sozinho em casa, por isso, usou a internet mais uma vez em seu favor. Descobriu a rota para chegar à entrevista e saiu de casa ansioso. Entrou no ônibus e sentou próximo à janela. Mal piscava enquanto observava os prédios antigos do Catete, a luz forte do sol iluminando o mar da Praia de Botafogo, os detalhes do gesticular carioca como quando aproximavam a mão da boca antes de falarem uma “parada sinistra”, as discussões acaloradas entre casais que ainda assim se amavam…

Teve sorte. Tinha o conhecimento para o cargo, estavam com pressa (ele também) e foi aceito de imediato. Foi apresentado à equipe e estranhou as panelinhas evidentes mesmo em um ambiente sem paredes. Foi recebido com um pé atrás pela maioria, mas o “social mídia” da empresa foi mais simpático com ele. Era a pessoa mais azarada que havia conhecido.

— Vai fazer o que no final de semana?
— Ver meus filhos. Vou aproveitar que minha ex-mulher tá de bom humor.
— Tu já tens filho, rapaz?
— Três! Os três eu fiz das vezes que acabei o namoro.
— Fez com outras, então?
— Não, com ela mesmo. Ela ficava mais fértil quando a gente brigava.

Seu primeiro dia de trabalho havia dado uma certa tranquilidade a Rafael. Teria agora o dinheiro para alugar um apartamento e não depender mais da boa vontade dos outros. Mas não demoraria para a cidade mostrar seu pior lado.

No mês seguinte, enquanto aguardava o ônibus para o trabalho, uma mulher surgiu na janela do prédio da frente eufórica e aos gritos. Pedia socorro, mas não dava para saber o problema que tinha. Até que surgiu um homem armado que, em segundos, puxou a senhora para dentro de casa.

Houve uma comoção na rua e Rafael meteu a mão no bolso para tirar o celular e ligar para a polícia, mas percebeu que não sabia onde estava. Não sabia o nome da rua, apenas que era ali onde pegava o ônibus para o trabalho. Como iria instruir a polícia assim? E se tivesse algum informante do homem armado na rua? Ele perceberia a ligação e tentaria tirar seu celular? Tentou ver se alguém estava fazendo algo a respeito e seu ônibus chegou na hora. Entrou e foi para o trabalho se sentindo um incompetente. O medo alarmado do Rio de Janeiro apareceu pela primeira vez, e não conseguiu fazer nada a respeito.

Precisava, então, sentir-se útil novamente, e a oportunidade veio no trabalho. Um serviço de última hora surgiu e precisava ser feito em tempo recorde. Tomou a responsabilidade para si e dispensou qualquer ajuda para não atrapalhar o fim de semana de nenhum colega.

Porém, no mesmo dia, a carioca o informou de um apartamento para alugar num bairro próximo. Sabia que poderia fazer seu trabalho com agilidade, por isso, poderia se dar ao luxo de visitar o lugar e adiar sua execução. Correu para Botafogo e conversou com o proprietário.

— Gostou do apartamento?
— Adorei! Todo reformado, mobiliado, perfeito para mim.
— Como vai fazer? Vai ser com fiador, seguro-fiança?
— Senhor, eu gostaria de um fiador, mas sou de Fortaleza e não conheço quase ninguém no Rio.
— Ah, você é de Fortaleza? Eu e minha mulher também somos.
— Que bom! Você aceitaria um fiador de lá, então?
— Não, não. Mas posso te dar umas dicas de como conseguir o seguro-fiança.

Ao sair do apartamento, viu as várias ligações de seu chefe em seu celular. Correu para casa para conseguir terminar o trabalho a tempo. Só depois, quando retornou as ligações, percebeu seu erro. O chefe não tinha sido claro quanto ao prazo e, pela demora, já havia contratado um freelancer para garantir a entrega. Seu trabalho foi inútil e resolveu conversar com seu chefe sobre o ocorrido.

— Rafael, você é a pessoa mais difícil de lidar da empresa. Se você não tinha condições de fazer o trabalho, por que dispensou outros da equipe para ajudá-lo? Você tem uma postura que me irrita, pois sempre rebate as minhas ordens. Tem problemas com autoridade e eu não gostaria nem de estar tendo esta conversa pelo quanto que isso me transtorna.

Ainda sem palavras pelo sermão, recebeu uma ligação da imobiliária negando seu pedido de seguro-fiança. Seus planos estavam todos dando errado. Não gostou da forma como foi tratado pelo chefe e revoltou-se por depender da boa vontade da imobiliária para começar a viver. Precisava se sentir bem com seu trabalho, com sua vida e com seu lar. Mas nada disso estava funcionando como imaginava.

Era a hora de usar as armas que tinha. Aproveitou sua visibilidade na internet e anunciou sua procura por um novo emprego enquanto negociava com o locador uma solução para o dilema do apartamento. Não demorou para um de seus amigos virtuais indicá-lo para uma vaga próxima de onde estava. Mas não seria tão simples assim.

O Rio de Janeiro novamente estava pronto para atrapalhar sua vida. A cidade que ele havia escolhido para si resolveu derramar toda a chuva que planejara produzir para os próximos seis meses em apenas um dia. Saiu do trabalho e se deparou com um rio no lugar da rua. A entrevista era a seis quadras de onde estava, mas não passava ônibus ou táxi ali, e mesmo que tivesse ao menos um guarda-chuva pouco ajudaria.

Tirou os tênis e a camiseta, dobrou a barra da calça e foi enfrentar o dilúvio. A rua irregular fazia o nível da água aumentar no caminho. A chuva forte refratava as luzes da cidade atrapalhando sua visão, enquanto a correnteza que se formava na altura da cintura o empurrava pela calçada e contra os muros. Quando cruzou uma avenida, era só subida dali em diante e foi se tornando mais fácil chegar onde queria.

Tocou a campainha completamente molhado, descalço, segurando os tênis, com a calça dobrada e camiseta sobre o ombro. Diante do olhar assustado de quem o recepcionou, disse:

— Eu disse que viria, faça chuva ou faça sol. – Afirmou com um olhar triunfante.

Acordou no dia seguinte com uma ligação. Era o locador.

— Rafael, resolvi fazer o seguinte contigo. Pode esquecer essa história de fiador e seguro-fiança. Você hoje está na mesma situação em que eu estive há 40 anos quando sai de Fortaleza e cheguei no Rio. Eu não posso deixar um conterrâneo meu na mão assim. Você me parece ser um garoto correto, então eu vou confiar em você. E se meu Padim Ciço deixar, nada de errado vai acontecer.

Alegria e alívio misturados a um pouco de vergonha tomaram conta deu seu peito. Nunca esperou essa atitude de alguém de sua cidade, de onde ele tinha saído com tanto ranço. Não poderia guardar mágoas de sua terra natal, por mais que estivesse agora onde havia escolhido estar.

Enquanto seus conceitos mudavam, precisa correr para o trabalho. Queria aceitar a proposta do novo emprego e sair do atual. Encontrou seu chefe na porta e foi logo dizendo:

— Chefe, eu estou saindo. Esse não é o ambiente em que quero trabalhar e aquela não era a forma que eu gostaria de ser tratado. Estou indo para um lugar com gente disposta a apostar no meu trabalho em vez de apenas me dar ordens e querer que eu as siga do seu jeito. Desculpe pela dor de cabeça que eu aparentemente causei, mas isso me ajudou a perceber que não é aqui que eu quero estar.

Dias depois, mudou-se para o seu espaço. O novo emprego tinha um ambiente agradável, sem tanto peso nas hierarquias e com foco em coisas que o agradavam. Além disso, seu relacionamento, que possibilitou todas essas mudanças, seria “normal” pela primeira vez, sem distância e sem favores. Rafael havia conseguido começar uma vida nova, com rumos decididos por ele. Estava, finalmente, virando gente.

Ainda e sempre

Eu nunca perco costumes. Só acrescento à minha lista, que nunca diminui, mais e mais manias e lembranças associadas ao cotidiano. O que me obriga a lembrar de vários rostos que não vejo diariamente, mas que me marcaram de formas particulares.

Ainda corto o sanduíche pela metade antes de comer.
Ainda guardo as contas pagas como me ensinou.
Ainda amarro o cadarço do “jeito certo”.
Ainda rio quando assisto X-Men (filmes com E).
Sempre conto suas histórias como se fossem minhas (já mataram o Kill Bill?)

Minha mente ainda viaja 246km quando visto a camisa que me deu.
Ainda me preocupo com suas indefinições.
Ainda lembro da promessa de ser seu amigo pra sempre.
Sempre penso em você quando como pão de queijo.

Ainda olho lugares interessantes e penso: um dia venho com você aqui.
Ainda penso em tirar fotos de cachorros na rua para te mostrar depois.
Ainda guardo aquele tênis branco, mas não uso mais.
Ainda tento repetir aquele sorriso em fotos.
Sempre rio quando tento pronunciar Osklen.

Ainda lembro de você quando bebo tequila.
Ainda me obrigo a fazer algo quando me sinto sozinho.
Ainda tenho vontade de assistir Cirque du Soleil contigo.
E tenho inveja por você ter visto antes de mim.

Ainda lembro da minha cabeça no seu colo.
Ainda lembro da sua cabeça no meu peito.
Sempre quero sua companhia em todos os filmes que vejo.
E sempre acordo esperando seu bom dia.

Sempre lembro de todos os seus conselhos.
Namore muito, e seja fiel a todas elas.
Falta de tempo não é desculpa. Tempo se arranja.
Você pode ser bom em qualquer coisa que quiser e tentar ser.
Não seja tão negativo. Se for pra falar, fale coisas boas.
Ainda te desobedeço, às vezes.

Ainda choro quando nos falamos ao telefone.
Ainda compro frutas porque você disse pra eu comer direito.
Ainda sinto falta de uma mesa na cozinha pra por o papo em dia.
E sempre lembro da sua frase: acho que criei você com juízo demais.

O que não ficou para trás

» Leia o prólogo antes, por favor.

Após algumas trocas de mensagens via Twitter, o inevitável ocorreu: precisávamos um do outro. Horas e horas de papo online logo me mostraram o quanto ela era muito mais interessante do que sua mini bio dizia. “Carioca, advogada, funkeira e flamenguista” era uma descrição tão rasa que soava quase absurda.

E de tanto nos falarmos, viramos os melhores amigos “virtuais” que poderíamos ter. Virtuais, pois como poderíamos nos sentir tão próximos de alguém que nunca havíamos tocado ou abraçado? Meio absurdo, mesmo hoje em dia, sentir saudades de quem só se mostrava em forma de bytes e pixels. Inexplicável, pensávamos, mas também era totalmente irresistível.

Trocávamos segredos, confissões e carinho. Sabíamos tudo um do outro, das maiores qualidades e alegrias às piores dores e defeitos. Até que transformamos um acontecimento ruim para mim numa ótima oportunidade para ambos. Finalmente iríamos sair do monitor e nos encontrarmos. 73 dias seria a primeira de tantas outras contagens regressivas.

Conheci no mesmo dia a cidade e a mulher maravilhosa. Nossa ligação foi tão forte que não conseguíamos tirar as mãos um do outro desde o primeiro abraço. No carro, dedos entrelaçados e palavras sussuradas de carinho durante todo o percurso até em casa. Eu me esforçava em dar atenção aos seus pais, que não continham a curiosidade a meu respeito, mas mal percebia que existia um mundo além daqueles olhos verdes.

Por dias fingimos ser apenas bons amigos. Queríamos ser discretos e até cautelosos enquanto ríamos da desconfiança de todos. “Como podem ser só amigos se estão sempre trocando carinho?” — sua mãe perguntava. Não éramos muito bons no disfarce, confesso.

Também fingi para mim mesmo que não estava apaixonado desde o aeroporto. Mas uma noite na Lapa destruiu qualquer resistência minha. “Se eu morasse no Rio, você namoraria comigo?” — perguntei. Ela disse que sim! Minha vida havia ganho um novo objetivo, e eu iria cumprí-lo a qualquer custo.

Sabíamos que namorar à distância não seria fácil, mas também sabíamos que o sacrifício tinha data para acabar. Prometi que em exatamente um ano estaríamos morando na mesma cidade. Até lá, tínhamos o mundo um do outro a explorar.

Abrimos nossas vidas para visita e nós mesmos seríamos os guias. Por um ano, fizemos malabarismos com nosso orçamento e tempo para nos vermos cerca de uma vez por mês. Assim, conhecíamos cada fragmento de nossa cidade natal e de nosso estilo de vida.

Ela, uma apaixonada por praias, se encantava com Porto das Dunas, Beach Park, Canoa Quebrada e Praia do Futuro. Eu, um deslumbrado pelo Rio, adorava conhecer seus vários cinemas, os bares e botequins sempre tão convidativos, os passeios de bicicleta na praia… Achava (acho) a vida no Rio muito charmosa e me sentia parte da vida dela a cada novo lugar que conhecíamos. O curioso é que acompanhando-a nos passeios, eu tentava ver minha cidade com outros olhos e descobri coisas que gostava e nem lembrava.

Assim, íamos percebendo que, apesar de difícil, existiam muitas coisas boas em um namoro à distância. Chego a suar frio só de lembrar o quanto ficava ansioso esperando ela sair pelo portão de desembarque do aeroporto. Cada reencontro nosso era uma sensação de euforia misturada com alívio que poucas vezes senti na vida. Alívio daquela pessoa existir e ser o mundo pra mim, e euforia por tudo que ainda faríamos juntos.

Quando o final do ano se aproximou, era hora de cumprir minha promessa: comprei minha passagem só de ida. Nunca vou esquecer do comentário dela no Twitter. “Hoje é o dia mais feliz da minha vida.” Já o meu, foi ser recebido de braços abertos por ela em sua cidade. Tudo aquilo que sonhei o ano inteiro finalmente estava prestes a acontecer.

Revivendo alguns momentos, lembro como era gostosa nossa convivência. Tão fácil, tão simples, tão próxima… Minha mãe até dizia admirar a ligação que a gente tinha. “Acho que nunca te vi tão à vontade com alguém.”

Mas ela tornava isso simples. A forma como me olhava de longe quando eu tentava me socializar com seus amigos, como sempre acertava tudo que eu gostava, como tinha paciência de me ajudar a comprar roupas recebendo as fotos por mms, como reduzíamos a distância que nos separava demonstrando carinho a todo momento, como me recebeu (e me aguentou) na casa de sua família enquanto eu procurava um lugar para mim, como me ajudou a comprar e organizar as primeiras coisas para o novo apartamento…

Não posso guardar mágoas de alguém assim. Quero essa boas lembranças para sempre. E quero ter outras histórias como essa para contar. Mudaria apenas o final.

O que não ficou para trás – Prólogo

Já viram post com prólogo? Eu não, mas achei que seria necessário nesse caso.

Não é exatamente um segredo que este blog surgiu em um momento de “fossa” pelo fim do meu último namoro. Como escrever sempre foi uma forma de expurgar meus dramas pessoais, acabei criando o Autocrítica com essa finalidade. Mas isso mudou um pouco à medida que mais textos foram sendo escritos.

Já há algum tempo, meus posts eram um exercício de escrita, mais do que uma catarse. Isso significa que exagerava certos aspectos para tornar a leitura mais interessante. Por favor, não estão dizendo que são falsos de forma alguma, pois todos sempre partiram de questões bastante particulares. Mas são parciais demais para serem levados ao pé da letra.

Digo isso porque creio que nunca precisei tanto voltar à proposta (e ao motivo) original quanto agora. Se você leu o post sobre as mulheres que amei deve ter estranhado o quão breve fui ao falar de N. Afinal, se ela mudou tanto a minha vida como eu disse, deveria ter escrito mais sobre ela, não é?

A verdade é que tanta mágoa e tantas lembranças ruins estão associadas ao nosso relacionamento que eu não conseguiria escrever mais do que aquilo sem deixar isso transparecer. Mas eu não tinha noção do quanto guardar sentimentos negativos em relação a alguém poderia influenciar na minha vida e na minha relação com outras pessoas.

Acho que eu não sabia o que era ter um trauma de verdade até hoje. E eu preciso lidar com esse trauma agora! Não posso associar tanta coisa ruim a alguém que há pouco tempo eu tratava como a mulher da minha vida.

E a primeira ação que pensei para resolver esse trauma foi escrever novamente sobre ela. Mas dessa vez, sem mágoas e sem tristeza. Quero me lembrar das coisas boas que sentia e via nela, e o quanto isso fazia eu me sentir em paz.

Assim, espero perder o medo de encontrá-la na cidade, o incômodo de ler referências a ela na internet, a dor de ainda associar coisas do meu cotidiano ao tempo que passamos juntos… Principalmente, quero perder o medo de continuar vivendo.

Torça por mim, por favor.

O que não ficou para trás »

Mulheres que amei e nunca esqueci

Tem mais ilustrações no final do texto, viu?

Entre as festas de final de ano em Fortaleza, minha mãe aproveitou minha presença na cidade para ajudá-la em sua mudança de apartamento. A ajuda incluía separar o que eu queria guardar das minhas coisas que ainda estavam por lá. E mexendo em meu antigo guarda-roupa, encontrei memorabílias dos amores que tive. Cartas, fotos, caixas ornadas e pequenos presentes estavam ali para atiçarem minha memória.

Com esses objetos na minha mente somados à uma conversa anterior, percebi que grandes decisões na minha vida foram tomadas influenciadas pelas mulheres que amei. Não sei exatamente se isso é bom ou ruim, mas a motivação é sempre óbvia.

Minha história com o sexo oposto começou mais ou menos na 1ª série. Pela primeira vez na vida, via uma menina com curiosidade, admiração e interesse. Lembro claramente dos meus músculos travarem enquanto via entrar na sala, em câmera lenta, aquela loirinha de cabelos ondulados longos, puxando a mochila num carrinho vermelho e uma lancheira a tiracolo.

Viviane — nunca cito nomes aqui, mas seria engraçado se ela lesse hoje este texto — era estudiosa, concentrada nas aulas e estava sempre acompanhada da melhor amiga, branquinha de cabelos negros lisos. E, óbvio, ela me ignorava completamente.

Aprendi a escrever por ela. Como eu queria chamar sua atenção de todas as formas, competíamos nas notas e a escrevia cartinhas com frequência. Minhas primeiras cartas de amor, para sempre tão ridículas. Ela rasgava todas dizendo que não tinha idade para aquilo. Nunca soube o que era o “aquilo”.

Cinco anos depois, conheci K. num réveillon em Mossoró. Com um sorriso fácil e um carisma indescritível, ela me fez sentir o que nunca havia sentido. Foi o meu primeiro amor, e eu o dela.

Aprendi inglês por ela. Nossa relação era como a de Chico Bento e Rosinha. Nunca nos beijamos e mal nos tocamos, mas queríamos ficar sempre juntos. Tanto que me matriculei no mesmo curso de inglês de sua irmã para facilitar nosso encontro, sempre tão temido pelo pai ciumento. Nos distanciamos meses depois, mas o carinho um pelo outro resistiu ao tempo — bem como a nova língua aprendida.

Meu primeiro amor significou muito pra mim, mas não me ajudou muito na perda da timidez. Isso só melhorou com minha primeira namorada. K.R. (não confundir com K.) estudava em meu antigo colégio e era a melhor aluna de minha tia. Com 14 anos, já falava em cursar Medicina e tratava as provas de colégio como seu primeiros obstáculos.

Aprendi a lutar por meus sonhos com ela. Numa época em que irresponsáveis como Renato Russo — que, ironicamente, ela adorava — cantavam o odio à química, aquela menina enfiava a cara nos livros sem deixar o namoro e a vida de lado. Quando a reencontrei recentemente, ela tinha conquistado tudo que queria e já almejava saltos maiores. Vi que ter foco e fazer certos sacrifícios podem, de fato, valer muito a pena. Posso sentir orgulho de minha ex?

Depois de uma 2ª namorada maluca que só me fez mal, encontrei P. no colégio. Nossas famílias eram amigas e começamos a nos falar depois de um curso de leitura dinâmica que fizemos juntos. Não aprendi nada, pois passava boa parte da aula olhando pra ela. Como alguém podia ser tão charmosa com 15 anos? Nos tornamos amigos, namorados e, depois, amigos de novo.

Aprendi com ela que só se vive uma vez. Minha primeira dose de álcool (tequila), minhas primeiras farras, nossa primeira vez e outros inúmeros momentos tornaram nossos 7 meses de namoro divertidos como nunca. P. tinha (ainda tem) um jeito gostoso de ver a vida e uma vontade de experimentar tudo que o mundo podia oferecer. E nada, NADA, parece conseguir derrubá-la.

Na inércia de curtir a vida, entrei para faculdade e conheci P.M. (quantos nomes parecidos…) em uma festa à fantasia. Ficamos temerosos de nos encontrar novamente, afinal, estávamos fantasiados! Felizmente éramos agradáveis aos nossos olhos mesmo sem fantasia e tive meu namoro mais longo: 4 anos.

Aprendi a ser adulto com ela. P.M. esteve comigo dos 17 aos 21 anos, praticamente meu período inteiro de faculdade. E é impressionante como se muda nessa fase. Feições, costumes, humor, corpo… Nós nos apoiávamos e nos adaptávamos às novidades como podíamos. E fomos muito bem sucedidos por bastante tempo. Mas quando nossos caminhos se apartaram, M. surgiu.

Conheci M. através de um amigo em comum, num momento de desespero. Seu computador havia “morrido” e levado sua monografia junto na véspera de entregá-la. Como bom nerd, fui resgatá-la. E fiz em duas horas o trabalho que poderia ter feito em 10 minutos. Meses depois, nosso interesse se confirmaria num reencontro inesperado, mas não necessariamente imprevisível.

Aprendi a tomar decisões com ela. Em pouco tempo de namoro, estávamos insatisfeitos profissionalmente e buscando uma solução para nós dois. Decidimos, então, montar uma empresa juntos. Mesmo diante da descrença alheia — “namorados trabalhando juntos não podem dar certo” — conseguimos nos tornar os melhores sócios que poderíamos ser. Mas nossas vidas mudaram, bem como nossos sonhos. Isso inviabilizou a empresa, mas não o carinho e respeito que sentíamos um pelo outro. Até que nos distanciamos, e nos encontrarmos em seguida como bons amigos.

Então, N. chegou virando a mesa com tudo isso em cima. Nossa relação provocou as maiores mudanças em minha breve vida, e ao fim fui impelido a questionar tudo o que achava saber e acreditava ser. Pouquíssimas respostas obtive até então, mas essas perguntas resultaram neste blog e são seu principal combustível.

Por que esquecê-las? Para quê? Quem foi a criatura que disse que “ex bom é ex morto” e ainda convenceu tanta gente por aí? Como alguém que você amou e com quem compartilhou os melhores momentos da sua vida deve agora se fingir de morto?

Por isso, não acredito em ex amores. Dá para ir além da pele, do beijo, do toque, da falta de fôlego e da taquicardia. O amor é outra coisa, como diria algum engraçadinho na internet. É querer ver a pessoa feliz, torcer por ela quando necessário, ajudá-la mesmo que indiretamente sempre que for oportuno, saber se afastar se assim for preciso e se aproximar com o respeito que todo alguém especial merece.

A dor não pode ser lembrança, não pode predominar. Ela deve passar e virar uma poeirinha no baú das memórias. Os bons momentos e o companheirismo, esses se mantêm em forma de cartas, presentes, caixas, fotos, e-mails… amor.

Meu amigo Thyagão se empolgou com meu texto e resolveu imaginar como as pessoas que citei seriam. Ele tem um traço estilo cartoon e eu adorei o resultado. O palhaço ainda vem falar comigo desse jeito:

Diz Douras, tudo certo? Olha, excelente texto. Pensei até fazer um também: Empregadas que amei e que nunca esqueci. hehehhehe… L. de Lindalva, S.de Suzete. hehehehe

Mas como texto não é comigo, resolvi desenhar essa série na mudrugada. Pode fazer qualquer coisa com os desenhos, inclusive me processar hehehe.

Confiram:

V. e K.
K.R. e P.
P.M. e M.