Amigo não se escolhe

Em pouco tempo, já estava íntimo da solidão. Divertia-me contemplando a beleza despercebida da cidade, ouvindo as frases soltas declaradas com tanta efusão ou deixando minhas lágrimas correrem sem timidez no cinema. Para espairecer, brincava de decifrar a personalidade dos passantes pela disposição dos traços retos em seus rostos. Não sabia se acertava algo sobre eles, mas gostava da sensação de desvendar tudo o que era possível no novo ambiente.

Mas, de vez em quando, algum detalhe ativava uma lembrança. Alguém magro e com uma barba esquisita, por exemplo, era idêntico a um grande amigo de infância, outro com óculos de aro grosso e andar apressado me lembrava um amigo designer, já aquele com cara de John Lennon se parecia mais com um amigo professor do que com o próprio Beatle. Uma expressão ouvida por acaso, uma peça de roupa familiar, um corte de cabelo diferente, gestos, trejeitos, vozes, meros detalhes percebidos em desconhecidos e que possuíam sempre alguma característica em comum com gente que agora estava longe. E por mais entretido que eu estivesse com tantas novidades, esse pessoal estava me fazendo uma falta tremenda.

Então, passar despercebido tinha perdido a graça. As amizades recentes ainda eram superficiais demais e eu tinha pressa para me sentir em casa. Logo, decidi escrever para quem eu queria como amigo.

Selecionei pessoas com as quais gostava de conversar, quem eu considerava interessante e que eu desejaria encontrar mais vezes — ou alguma vez, no caso das conhecidas apenas pela internet — e fiz um e-mail para cada uma. Escrevi sobre o quanto suas companhias me agradavam, sobre locais que com certeza iriam gostar e procurei saber da disposição para ir a algum desses lugares e jogar conversa fora. Sabia do possível ridículo, mas tentei transpor em palavras a mesma sinceridade que eu esperaria de alguém que gosto. Porém, a única resposta que recebi ficou na promessa.

Desisti de insistir e voltei ao estado inicial. Não tinha sido a primeira das minhas frustrações e nem seria a última. Felizmente, já havia aprendido a lidar melhor com isso.

Até que, saindo de um mercado, vi um rosto familiar. Essa sensação não era novidade, porém, dessa vez era alguém conhecido de fato! Fiquei abismado não só pela raridade que era encontrar alguém conhecido na rua, como também pela simpatia com a qual fui tratado. Um “vamos marcar” concretizado depois me garantiu a amizade de um dos casais mais incríveis do Rio, além de minhas primeiras aulas de culinária.

E oportunidades como essa continuaram a surgir com os tipos mais diferentes de pessoas. Como uma mesa de poker na casa de um webdesigner incapaz de seguir regras e fonte inesgotável de frases geniais, aulas de desenho (que nunca levei adiante) com o ilustrador mais talentoso e mais gente boa que existe, partidas de basquete com um DJ-triatleta-programador incrivelmente inteligente e com quem tenho uma dívida eterna pelas inúmeras vezes que já me ajudou no Rio, sem contar os bares com o grupo de “imigrantes” com quem tenho uma afinidade óbvia e os papos eternos sobre assuntos tão interessantes quanto inúteis na hora do almoço com os colegas do trabalho.

O tempo passou, e as adversidades da mudança também. Se em outro momento forcei a barra escolhendo meus amigos, agora vejo que não era bem uma questão de escolha. Posso não saber a razão, se é que existe alguma, mas o fato é que nunca imaginei que parar de insistir iria me garantir justamente o que eu tanto queria.

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A jornada de mais um herói

Este foi o 1º conto que escrevi na vida e a 1ª vez que participei de algum concurso literário. Não ganhei (óbvio), mas contei com a divulgação e apoio de muita gente querida por quem serei eternamente grato. Enquanto não tem texto novo, deixo aqui registrado este, que escrevi quando fiz o curso do mestre Eduardo Spohr, sobre meus já longínquos 3 primeiros meses no Rio de Janeiro.

A Jornada De Mais Um Herói

Uma grande sacanagem divina. Era assim que Rafael descrevia a escolha do acaso para o seu local de nascimento. Definitivamente não gostava de Fortaleza. Sabia de seus atrativos como cidade turística, mas era muito limitada quanto a assuntos de seu interesse como cinema, teatro e música. Quanto mais dizia querer sair da cidade, mais rabugento se tornava. Já era um velho ranzinza aos 26 anos.

Apesar da sua postura mal humorada no dia-a-dia, tentava parecer ser alguém mais agradável na internet. Escrevia com frequência em seu blog e em sua conta no Twitter, e angariava seguidores com certa facilidade. Ao mesmo tempo, procurava conhecer pessoas novas o tempo todo, de preferência de outras cidades e com outras culturas.

Foi procurando alguém assim, diferente, que conheceu a carioca. Na sua terra, as mulheres não eram assim. Marrenta, geniosa, com olhos verdes e pele laranja, ela chamou a atenção de Rafael imediatamente. E, para sua surpresa, a atração foi recíproca.

Com o romance acontecendo, ficou claro que ela não era apenas alguém interessante, mas um símbolo de um mundo novo do qual ele queria fazer parte. Queria saber o que era morar no Rio de Janeiro, andar pela praia a caminho do trabalho, ter sua vaidade incentivada, sentir-se à vontade em qualquer ambiente com camiseta e bermuda e ser feliz na terra em que havia escolhido viver. O pedido então foi feito, iriam morar e namorar na mesma cidade.

Quando percebeu a mudança que estava fazendo, a insegurança surgiu. Era fato que Fortaleza não era seu lugar, mas era onde ele havia nascido. Apesar de reclamar de sua vida atual, sabia que era um disfarce para a óbvia saudade que sentiria. Além disso, teria que cuidar do seu próprio espaço, mas sequer sabia fritar um ovo ou esquentar miojo. Era uma criança adulta protegida e sabia disso. Mas, como sua mãe dizia, precisava “virar gente”.

Fez as malas e embarcou para a terra de Vinícius de Morais. Foi recebido de braços abertos por sua namorada e pelo pai dela. Chamava-o de mestre. Era um senhor de aparência caricata e temperamento explosivo. Havia viajado o Brasil inteiro pela marinha e assumiu uma dívida com a vida ao contar inúmeras vezes com favores de estranhos que o hospedavam em suas casas. Fez questão de fazer o mesmo por ele.

O relacionamento entre os dois acabou se tornando de mestre e discípulo. Rafael era visivelmente despreparado para a vida no Rio de Janeiro, e o mestre tomou para si a responsabilidade de criá-lo. Conversavam sempre sobre as diferenças entre as duas culturas e as peculiaridades dos cariocas e fluminenses. A acirrada disputa entre classes, a agressividade e expansividade típicas, o individualismo consequente de uma cidade com o dobro da população de sua antiga morada… O Rio era desmistificado na mesa de jantar enquanto seu maior desafio ainda era de encontrar um emprego.

Duas semanas após a mudança, recebeu seu primeiro chamado de trabalho. Nunca havia saído sozinho pela cidade, além de ter se tornado extremamente tímido pela expansividade dos nativos. Brincavam com seu sotaque, seu comportamento, seu jeito de andar e suas reações. Não sabia sequer se portar no Rio sem ser visto como um estrangeiro e agora precisava convencer alguém de que era o melhor para a vaga.

Estava sozinho em casa, por isso, usou a internet mais uma vez em seu favor. Descobriu a rota para chegar à entrevista e saiu de casa ansioso. Entrou no ônibus e sentou próximo à janela. Mal piscava enquanto observava os prédios antigos do Catete, a luz forte do sol iluminando o mar da Praia de Botafogo, os detalhes do gesticular carioca como quando aproximavam a mão da boca antes de falarem uma “parada sinistra”, as discussões acaloradas entre casais que ainda assim se amavam…

Teve sorte. Tinha o conhecimento para o cargo, estavam com pressa (ele também) e foi aceito de imediato. Foi apresentado à equipe e estranhou as panelinhas evidentes mesmo em um ambiente sem paredes. Foi recebido com um pé atrás pela maioria, mas o “social mídia” da empresa foi mais simpático com ele. Era a pessoa mais azarada que havia conhecido.

— Vai fazer o que no final de semana?
— Ver meus filhos. Vou aproveitar que minha ex-mulher tá de bom humor.
— Tu já tens filho, rapaz?
— Três! Os três eu fiz das vezes que acabei o namoro.
— Fez com outras, então?
— Não, com ela mesmo. Ela ficava mais fértil quando a gente brigava.

Seu primeiro dia de trabalho havia dado uma certa tranquilidade a Rafael. Teria agora o dinheiro para alugar um apartamento e não depender mais da boa vontade dos outros. Mas não demoraria para a cidade mostrar seu pior lado.

No mês seguinte, enquanto aguardava o ônibus para o trabalho, uma mulher surgiu na janela do prédio da frente eufórica e aos gritos. Pedia socorro, mas não dava para saber o problema que tinha. Até que surgiu um homem armado que, em segundos, puxou a senhora para dentro de casa.

Houve uma comoção na rua e Rafael meteu a mão no bolso para tirar o celular e ligar para a polícia, mas percebeu que não sabia onde estava. Não sabia o nome da rua, apenas que era ali onde pegava o ônibus para o trabalho. Como iria instruir a polícia assim? E se tivesse algum informante do homem armado na rua? Ele perceberia a ligação e tentaria tirar seu celular? Tentou ver se alguém estava fazendo algo a respeito e seu ônibus chegou na hora. Entrou e foi para o trabalho se sentindo um incompetente. O medo alarmado do Rio de Janeiro apareceu pela primeira vez, e não conseguiu fazer nada a respeito.

Precisava, então, sentir-se útil novamente, e a oportunidade veio no trabalho. Um serviço de última hora surgiu e precisava ser feito em tempo recorde. Tomou a responsabilidade para si e dispensou qualquer ajuda para não atrapalhar o fim de semana de nenhum colega.

Porém, no mesmo dia, a carioca o informou de um apartamento para alugar num bairro próximo. Sabia que poderia fazer seu trabalho com agilidade, por isso, poderia se dar ao luxo de visitar o lugar e adiar sua execução. Correu para Botafogo e conversou com o proprietário.

— Gostou do apartamento?
— Adorei! Todo reformado, mobiliado, perfeito para mim.
— Como vai fazer? Vai ser com fiador, seguro-fiança?
— Senhor, eu gostaria de um fiador, mas sou de Fortaleza e não conheço quase ninguém no Rio.
— Ah, você é de Fortaleza? Eu e minha mulher também somos.
— Que bom! Você aceitaria um fiador de lá, então?
— Não, não. Mas posso te dar umas dicas de como conseguir o seguro-fiança.

Ao sair do apartamento, viu as várias ligações de seu chefe em seu celular. Correu para casa para conseguir terminar o trabalho a tempo. Só depois, quando retornou as ligações, percebeu seu erro. O chefe não tinha sido claro quanto ao prazo e, pela demora, já havia contratado um freelancer para garantir a entrega. Seu trabalho foi inútil e resolveu conversar com seu chefe sobre o ocorrido.

— Rafael, você é a pessoa mais difícil de lidar da empresa. Se você não tinha condições de fazer o trabalho, por que dispensou outros da equipe para ajudá-lo? Você tem uma postura que me irrita, pois sempre rebate as minhas ordens. Tem problemas com autoridade e eu não gostaria nem de estar tendo esta conversa pelo quanto que isso me transtorna.

Ainda sem palavras pelo sermão, recebeu uma ligação da imobiliária negando seu pedido de seguro-fiança. Seus planos estavam todos dando errado. Não gostou da forma como foi tratado pelo chefe e revoltou-se por depender da boa vontade da imobiliária para começar a viver. Precisava se sentir bem com seu trabalho, com sua vida e com seu lar. Mas nada disso estava funcionando como imaginava.

Era a hora de usar as armas que tinha. Aproveitou sua visibilidade na internet e anunciou sua procura por um novo emprego enquanto negociava com o locador uma solução para o dilema do apartamento. Não demorou para um de seus amigos virtuais indicá-lo para uma vaga próxima de onde estava. Mas não seria tão simples assim.

O Rio de Janeiro novamente estava pronto para atrapalhar sua vida. A cidade que ele havia escolhido para si resolveu derramar toda a chuva que planejara produzir para os próximos seis meses em apenas um dia. Saiu do trabalho e se deparou com um rio no lugar da rua. A entrevista era a seis quadras de onde estava, mas não passava ônibus ou táxi ali, e mesmo que tivesse ao menos um guarda-chuva pouco ajudaria.

Tirou os tênis e a camiseta, dobrou a barra da calça e foi enfrentar o dilúvio. A rua irregular fazia o nível da água aumentar no caminho. A chuva forte refratava as luzes da cidade atrapalhando sua visão, enquanto a correnteza que se formava na altura da cintura o empurrava pela calçada e contra os muros. Quando cruzou uma avenida, era só subida dali em diante e foi se tornando mais fácil chegar onde queria.

Tocou a campainha completamente molhado, descalço, segurando os tênis, com a calça dobrada e camiseta sobre o ombro. Diante do olhar assustado de quem o recepcionou, disse:

— Eu disse que viria, faça chuva ou faça sol. – Afirmou com um olhar triunfante.

Acordou no dia seguinte com uma ligação. Era o locador.

— Rafael, resolvi fazer o seguinte contigo. Pode esquecer essa história de fiador e seguro-fiança. Você hoje está na mesma situação em que eu estive há 40 anos quando sai de Fortaleza e cheguei no Rio. Eu não posso deixar um conterrâneo meu na mão assim. Você me parece ser um garoto correto, então eu vou confiar em você. E se meu Padim Ciço deixar, nada de errado vai acontecer.

Alegria e alívio misturados a um pouco de vergonha tomaram conta deu seu peito. Nunca esperou essa atitude de alguém de sua cidade, de onde ele tinha saído com tanto ranço. Não poderia guardar mágoas de sua terra natal, por mais que estivesse agora onde havia escolhido estar.

Enquanto seus conceitos mudavam, precisa correr para o trabalho. Queria aceitar a proposta do novo emprego e sair do atual. Encontrou seu chefe na porta e foi logo dizendo:

— Chefe, eu estou saindo. Esse não é o ambiente em que quero trabalhar e aquela não era a forma que eu gostaria de ser tratado. Estou indo para um lugar com gente disposta a apostar no meu trabalho em vez de apenas me dar ordens e querer que eu as siga do seu jeito. Desculpe pela dor de cabeça que eu aparentemente causei, mas isso me ajudou a perceber que não é aqui que eu quero estar.

Dias depois, mudou-se para o seu espaço. O novo emprego tinha um ambiente agradável, sem tanto peso nas hierarquias e com foco em coisas que o agradavam. Além disso, seu relacionamento, que possibilitou todas essas mudanças, seria “normal” pela primeira vez, sem distância e sem favores. Rafael havia conseguido começar uma vida nova, com rumos decididos por ele. Estava, finalmente, virando gente.

Super 8 e Super Pai

Você lembra do primeiro filme que assistiu? A sensação de entrar naquela sala escura pela primeira vez, o cheiro de pipoca e ar-condicionado, a textura do veludo nas paredes, o tecido da poltrona…

Ir ao cinema sempre me traz de volta um pouco dessa sensação. Não importa quanto tempo passe, meu deslumbramento ao ver minhas emoções iluminadas na grande tela não desaparece.

Hoje eu me lembrei do primeiro filme que acredito ter visto no cinema: História Sem Fim. Éramos apenas eu meu pai, pois minha irmã ainda era um bebê e minha mãe provavelmente havia ficado cuidando dela em casa. Fomos ao clássico Cine São Luiz, no calor escaldante do sol de Fortaleza que queimava o chão da Praça do Ferreira.

Compramos pipoca do lado de fora e aguardamos na fila a hora de entrar. Meu pai tentava me preparar para o filme, contando pequenos detalhes da aventura que estava prestes a ver e de como eu deveria me comportar no lugar. Lembro de olhar boquiaberto para o cartaz, imaginando quem eram aquelas criaturas que eu não conseguia descrever com as poucas palavras aprendidas.

Fiquei meio entediado no meio do filme e brinquei dizendo que a história não tinha fim (tu-dum tssss). Mas sai da sala contando o enredo do meu jeito pra todo mundo. Falava do dragão branco (tenho certeza que aprendi a palavra ‘dragão’ naquela hora), do monstro de pedra, da rainha, do herói e do cavalo que morreu triste (como se eu  já entendesse a morte).

Desde esse dia, cinema sempre foi algo ligado à figura dele. Por mais que eu tenha assimilado o gosto por cultura com os dois, e ambos costumem ver filmes e ler livros com muita frequência, intimamente era como se eu dividisse: leio por culpa da minha mãe, vejo filmes por culpa do meu pai.

Mas nunca um filme me fez lembrar disso tudo de um jeito tão forte. Assistindo Super 8 hoje, eu podia sentir os pêlos do meu rosto sumindo, meus poucos músculos encolhendo, minha estatura diminuindo e a dureza no olhar dando lugar ao deslumbramento inocente. Eu não era mais o webdesigner aspirante a escritor morador do Rio de Janeiro, mas o filho do Dourado e da “Mainha” vendo o mundo pela primeira vez.

Eu sei que entrei naquele cinema para ser enganado e provocado como os filmes devem fazer, mas o que eu ganhei foi um abraço fraternal de Spielberg, JJ Abrams e de meu pai. Eu me senti novamente um E.T., mas dessa vez um que queria voltar pra casa só para ter esse abraço de verdade.

Queria ter assistido esse filme com ele para poder sair da sala com a mão no seu ombro enquanto bagunça meu cabelo como sempre faz. Engraçado como parece que é preciso ser tirado do eixo para lembrar da falta que essa distância dele me faz. Super 8 fez isso comigo.

Acredito que uma obra cumpre seu verdadeiro papel como arte quando, ao final, em vez de “parabéns pelo trabalho” a vontade é de dizer “obrigado”.

Logo, muito obrigado aos envolvidos por fazerem eu me lembrar do abraço do meu pai tão vívidamente ao ponto de acreditar que ele finalmente havia vindo me visitar. Obrigado por me lembrarem dos outros pais e mães que conheci e que me marcaram cada um a sua maneira. Mesmo os que já foram serão lembrados sempre com o mesmo carinho que lembro do meu primeiro cinema.

Feliz dia dos pais.

PS: O meu péssimo senso de oportunidade me impede de fazer textos que calhem com alguma data comemorativa. Pela primeira vez isso aconteceu! Até por isso eu poderia agradecer. 🙂