Como deveria ter sido

Nós deveríamos ter nos conhecido antes, e nos apaixonado logo de cara, sem porém ou medo. Deveríamos ter dado início aos planos de ficarmos juntos nesse mesmo momento. E deveríamos tê-los cumprido.

Era para você, ou eu, termos feito as malas meses depois e comprado uma passagem só de ida. E assim que chegasse, aproveitaríamos cada minuto junto naquela ânsia gostosa de quem encontrou o que sempre quis.

Iríamos ao circo, ao cinema, ao teatro. Assistiríamos episódios seguidos de todas as séries da TV. Mostraríamos um ao outro nossos filmes preferidos de todos os tempos, nossos lugares mais bonitos de cada cidade. Passearíamos pelo Arpoador, Ipanema e Leblon, comeríamos comidas diferentes, riríamos um com o outro.

Encontraríamos novas formas de nos elogiarmos e de mostrar o quanto éramos especiais. O quanto sentíamos falta da gente e das minhas-tuas coisas. Descobriríamos o prazer de dividir tudo, da louça suja à alegria boba de encostar os pés frios. Viveríamos o que ansiávamos viver.

Mas não foi como deveria ter sido. Não foi, pois eu não era o que você merecia que eu fosse. Meu demônio interior que eu tentei embaraçosamente matar veio me mostrar o quanto eu fui fraco. Transformei nossa história em uma almofada de presente úmida de lágrimas.  Então, ouvi de novo tudo o que passei um ano querendo corrigir, mas ficando só na intenção. Incompetente que fui em amar quem só me quis bem.

Não vou sentir pena de mim mesmo e não vou elaborar desculpas para diminuir a gravidade da minha postura desrespeitosa. Não posso ser tão burro quanto pareço. Vou merecer quem tanto quero e serei, tardiamente ou não, o que eu deveria ter sido desde o princípio.

A jornada de mais um herói

Este foi o 1º conto que escrevi na vida e a 1ª vez que participei de algum concurso literário. Não ganhei (óbvio), mas contei com a divulgação e apoio de muita gente querida por quem serei eternamente grato. Enquanto não tem texto novo, deixo aqui registrado este, que escrevi quando fiz o curso do mestre Eduardo Spohr, sobre meus já longínquos 3 primeiros meses no Rio de Janeiro.

A Jornada De Mais Um Herói

Uma grande sacanagem divina. Era assim que Rafael descrevia a escolha do acaso para o seu local de nascimento. Definitivamente não gostava de Fortaleza. Sabia de seus atrativos como cidade turística, mas era muito limitada quanto a assuntos de seu interesse como cinema, teatro e música. Quanto mais dizia querer sair da cidade, mais rabugento se tornava. Já era um velho ranzinza aos 26 anos.

Apesar da sua postura mal humorada no dia-a-dia, tentava parecer ser alguém mais agradável na internet. Escrevia com frequência em seu blog e em sua conta no Twitter, e angariava seguidores com certa facilidade. Ao mesmo tempo, procurava conhecer pessoas novas o tempo todo, de preferência de outras cidades e com outras culturas.

Foi procurando alguém assim, diferente, que conheceu a carioca. Na sua terra, as mulheres não eram assim. Marrenta, geniosa, com olhos verdes e pele laranja, ela chamou a atenção de Rafael imediatamente. E, para sua surpresa, a atração foi recíproca.

Com o romance acontecendo, ficou claro que ela não era apenas alguém interessante, mas um símbolo de um mundo novo do qual ele queria fazer parte. Queria saber o que era morar no Rio de Janeiro, andar pela praia a caminho do trabalho, ter sua vaidade incentivada, sentir-se à vontade em qualquer ambiente com camiseta e bermuda e ser feliz na terra em que havia escolhido viver. O pedido então foi feito, iriam morar e namorar na mesma cidade.

Quando percebeu a mudança que estava fazendo, a insegurança surgiu. Era fato que Fortaleza não era seu lugar, mas era onde ele havia nascido. Apesar de reclamar de sua vida atual, sabia que era um disfarce para a óbvia saudade que sentiria. Além disso, teria que cuidar do seu próprio espaço, mas sequer sabia fritar um ovo ou esquentar miojo. Era uma criança adulta protegida e sabia disso. Mas, como sua mãe dizia, precisava “virar gente”.

Fez as malas e embarcou para a terra de Vinícius de Morais. Foi recebido de braços abertos por sua namorada e pelo pai dela. Chamava-o de mestre. Era um senhor de aparência caricata e temperamento explosivo. Havia viajado o Brasil inteiro pela marinha e assumiu uma dívida com a vida ao contar inúmeras vezes com favores de estranhos que o hospedavam em suas casas. Fez questão de fazer o mesmo por ele.

O relacionamento entre os dois acabou se tornando de mestre e discípulo. Rafael era visivelmente despreparado para a vida no Rio de Janeiro, e o mestre tomou para si a responsabilidade de criá-lo. Conversavam sempre sobre as diferenças entre as duas culturas e as peculiaridades dos cariocas e fluminenses. A acirrada disputa entre classes, a agressividade e expansividade típicas, o individualismo consequente de uma cidade com o dobro da população de sua antiga morada… O Rio era desmistificado na mesa de jantar enquanto seu maior desafio ainda era de encontrar um emprego.

Duas semanas após a mudança, recebeu seu primeiro chamado de trabalho. Nunca havia saído sozinho pela cidade, além de ter se tornado extremamente tímido pela expansividade dos nativos. Brincavam com seu sotaque, seu comportamento, seu jeito de andar e suas reações. Não sabia sequer se portar no Rio sem ser visto como um estrangeiro e agora precisava convencer alguém de que era o melhor para a vaga.

Estava sozinho em casa, por isso, usou a internet mais uma vez em seu favor. Descobriu a rota para chegar à entrevista e saiu de casa ansioso. Entrou no ônibus e sentou próximo à janela. Mal piscava enquanto observava os prédios antigos do Catete, a luz forte do sol iluminando o mar da Praia de Botafogo, os detalhes do gesticular carioca como quando aproximavam a mão da boca antes de falarem uma “parada sinistra”, as discussões acaloradas entre casais que ainda assim se amavam…

Teve sorte. Tinha o conhecimento para o cargo, estavam com pressa (ele também) e foi aceito de imediato. Foi apresentado à equipe e estranhou as panelinhas evidentes mesmo em um ambiente sem paredes. Foi recebido com um pé atrás pela maioria, mas o “social mídia” da empresa foi mais simpático com ele. Era a pessoa mais azarada que havia conhecido.

— Vai fazer o que no final de semana?
— Ver meus filhos. Vou aproveitar que minha ex-mulher tá de bom humor.
— Tu já tens filho, rapaz?
— Três! Os três eu fiz das vezes que acabei o namoro.
— Fez com outras, então?
— Não, com ela mesmo. Ela ficava mais fértil quando a gente brigava.

Seu primeiro dia de trabalho havia dado uma certa tranquilidade a Rafael. Teria agora o dinheiro para alugar um apartamento e não depender mais da boa vontade dos outros. Mas não demoraria para a cidade mostrar seu pior lado.

No mês seguinte, enquanto aguardava o ônibus para o trabalho, uma mulher surgiu na janela do prédio da frente eufórica e aos gritos. Pedia socorro, mas não dava para saber o problema que tinha. Até que surgiu um homem armado que, em segundos, puxou a senhora para dentro de casa.

Houve uma comoção na rua e Rafael meteu a mão no bolso para tirar o celular e ligar para a polícia, mas percebeu que não sabia onde estava. Não sabia o nome da rua, apenas que era ali onde pegava o ônibus para o trabalho. Como iria instruir a polícia assim? E se tivesse algum informante do homem armado na rua? Ele perceberia a ligação e tentaria tirar seu celular? Tentou ver se alguém estava fazendo algo a respeito e seu ônibus chegou na hora. Entrou e foi para o trabalho se sentindo um incompetente. O medo alarmado do Rio de Janeiro apareceu pela primeira vez, e não conseguiu fazer nada a respeito.

Precisava, então, sentir-se útil novamente, e a oportunidade veio no trabalho. Um serviço de última hora surgiu e precisava ser feito em tempo recorde. Tomou a responsabilidade para si e dispensou qualquer ajuda para não atrapalhar o fim de semana de nenhum colega.

Porém, no mesmo dia, a carioca o informou de um apartamento para alugar num bairro próximo. Sabia que poderia fazer seu trabalho com agilidade, por isso, poderia se dar ao luxo de visitar o lugar e adiar sua execução. Correu para Botafogo e conversou com o proprietário.

— Gostou do apartamento?
— Adorei! Todo reformado, mobiliado, perfeito para mim.
— Como vai fazer? Vai ser com fiador, seguro-fiança?
— Senhor, eu gostaria de um fiador, mas sou de Fortaleza e não conheço quase ninguém no Rio.
— Ah, você é de Fortaleza? Eu e minha mulher também somos.
— Que bom! Você aceitaria um fiador de lá, então?
— Não, não. Mas posso te dar umas dicas de como conseguir o seguro-fiança.

Ao sair do apartamento, viu as várias ligações de seu chefe em seu celular. Correu para casa para conseguir terminar o trabalho a tempo. Só depois, quando retornou as ligações, percebeu seu erro. O chefe não tinha sido claro quanto ao prazo e, pela demora, já havia contratado um freelancer para garantir a entrega. Seu trabalho foi inútil e resolveu conversar com seu chefe sobre o ocorrido.

— Rafael, você é a pessoa mais difícil de lidar da empresa. Se você não tinha condições de fazer o trabalho, por que dispensou outros da equipe para ajudá-lo? Você tem uma postura que me irrita, pois sempre rebate as minhas ordens. Tem problemas com autoridade e eu não gostaria nem de estar tendo esta conversa pelo quanto que isso me transtorna.

Ainda sem palavras pelo sermão, recebeu uma ligação da imobiliária negando seu pedido de seguro-fiança. Seus planos estavam todos dando errado. Não gostou da forma como foi tratado pelo chefe e revoltou-se por depender da boa vontade da imobiliária para começar a viver. Precisava se sentir bem com seu trabalho, com sua vida e com seu lar. Mas nada disso estava funcionando como imaginava.

Era a hora de usar as armas que tinha. Aproveitou sua visibilidade na internet e anunciou sua procura por um novo emprego enquanto negociava com o locador uma solução para o dilema do apartamento. Não demorou para um de seus amigos virtuais indicá-lo para uma vaga próxima de onde estava. Mas não seria tão simples assim.

O Rio de Janeiro novamente estava pronto para atrapalhar sua vida. A cidade que ele havia escolhido para si resolveu derramar toda a chuva que planejara produzir para os próximos seis meses em apenas um dia. Saiu do trabalho e se deparou com um rio no lugar da rua. A entrevista era a seis quadras de onde estava, mas não passava ônibus ou táxi ali, e mesmo que tivesse ao menos um guarda-chuva pouco ajudaria.

Tirou os tênis e a camiseta, dobrou a barra da calça e foi enfrentar o dilúvio. A rua irregular fazia o nível da água aumentar no caminho. A chuva forte refratava as luzes da cidade atrapalhando sua visão, enquanto a correnteza que se formava na altura da cintura o empurrava pela calçada e contra os muros. Quando cruzou uma avenida, era só subida dali em diante e foi se tornando mais fácil chegar onde queria.

Tocou a campainha completamente molhado, descalço, segurando os tênis, com a calça dobrada e camiseta sobre o ombro. Diante do olhar assustado de quem o recepcionou, disse:

— Eu disse que viria, faça chuva ou faça sol. – Afirmou com um olhar triunfante.

Acordou no dia seguinte com uma ligação. Era o locador.

— Rafael, resolvi fazer o seguinte contigo. Pode esquecer essa história de fiador e seguro-fiança. Você hoje está na mesma situação em que eu estive há 40 anos quando sai de Fortaleza e cheguei no Rio. Eu não posso deixar um conterrâneo meu na mão assim. Você me parece ser um garoto correto, então eu vou confiar em você. E se meu Padim Ciço deixar, nada de errado vai acontecer.

Alegria e alívio misturados a um pouco de vergonha tomaram conta deu seu peito. Nunca esperou essa atitude de alguém de sua cidade, de onde ele tinha saído com tanto ranço. Não poderia guardar mágoas de sua terra natal, por mais que estivesse agora onde havia escolhido estar.

Enquanto seus conceitos mudavam, precisa correr para o trabalho. Queria aceitar a proposta do novo emprego e sair do atual. Encontrou seu chefe na porta e foi logo dizendo:

— Chefe, eu estou saindo. Esse não é o ambiente em que quero trabalhar e aquela não era a forma que eu gostaria de ser tratado. Estou indo para um lugar com gente disposta a apostar no meu trabalho em vez de apenas me dar ordens e querer que eu as siga do seu jeito. Desculpe pela dor de cabeça que eu aparentemente causei, mas isso me ajudou a perceber que não é aqui que eu quero estar.

Dias depois, mudou-se para o seu espaço. O novo emprego tinha um ambiente agradável, sem tanto peso nas hierarquias e com foco em coisas que o agradavam. Além disso, seu relacionamento, que possibilitou todas essas mudanças, seria “normal” pela primeira vez, sem distância e sem favores. Rafael havia conseguido começar uma vida nova, com rumos decididos por ele. Estava, finalmente, virando gente.

Quem sou eu, afinal?

Nunca entendi muito bem quando buscava uma orientação para alguma dúvida da vida e ouvia: seja você mesmo. Sempre questionava se o mentor de ocasião se referia a quem ele acreditava que eu era ou quem eu realmente era. Se fosse a primeira opção, eu podia me tornar essa pessoa?

Na dúvida entre ser e parecer, sempre tentei parecer ser. Assim, desde criança desempenhava papéis que me favoreciam de alguma forma. Depois de tentativas frustradas de ser o Homem-aranha (o que me rendeu uma escrivaninha na cabeça quando tentei grudar em baixo dela) ou o Karatê Kid (hoje estou mais pra Sr. Miyagi), comecei a entender que eu poderia ser diferente para pessoas distintas.

Aos 10 anos, por exemplo, promovi algo que ninguém esperaria de mim. Era época de festa junina e os alunos haviam se dividido entre as barracas de comidas típicas e a dança na quadrilha. Depois da apresentação (sim, eu era da dança) fui fazer companhia aos meus colegas nas barracas montadas na quadra esportiva.

A gente começou com aquelas brincadeiras de perguntar “você viu aonde o Fábio foi” com a boca cheia de farofa. Depois era pipoca no olho dos outros e na roupa das meninas. Não demorou para eu pegar uma colher de arroz doce e sapecar na cara do outro, esquivando, em seguida, de uma mão cheia de cuscuz.

Em segundos, as barracas viraram trincheiras e os pais e avós corriam arrependidos de terem se reproduzido. Corri sozinho para o meio da quadra e fui atingido por uma canjica. Avistei Océlia, a coordenadora, entrando na quadra fumaçando de raiva e vindo em minha direção. Não pensei duas vezes:

— Océlia! Olha só o que fizeram comigo! — Falei com minha cara de bom moço.
— Sai da quadra, Rafael. Eu vou acabar com essa palhaçada agora.

Entre suspensões e puxões de orelha, escapei ileso. Ninguém ali acreditaria que um dos melhores alunos do colégio tinha sido catalizador da maior guerra de comida do bairro.

A aventura me rendeu uma história engraçadinha e uma crise de identidade eterna, agravada com a chegada da adolescência. Nessa época, fiz amizade com um cara “experiente” (o máximo que a juventude permitia) em lidar com o sexo oposto.

Esse amigo me contou seu segredo: homem não pode ter personalidade definida, deve ser o que a mulher espera que ele seja. Eu não sei se o mais absurdo é a frase em si ou o fato de ter tanta gente egocêntrica ao ponto de passar a vida filtrando pessoas de acordo com suas próprias expectativas.

Era fácil, a vítima soltava a característica que mais gostava e eu fingia ser daquele jeito. Espontâneo, discreto, vaidoso, engraçado, decidido, misterioso, qualquer coisa que eu ouvisse ser a fórmula de como um homem deveria ser eu simulava.

Até que me vi fazendo isso em qualquer relação. Eu era o mais capacitado na entrevista de emprego, o namorado perfeito para as amigas da namorada, o aluno promissor na escola, o fígado de ferro na faculdade, ou o oposto de tudo isso só para ver o acontecia. Mas nunca soube quais desses eu realmente era.

Minha última tentativa de ser outra coisa foi quando resolvi ser carioca. Sim, eu achava que alterar meu nascimento seria fácil. Na teoria até que era. Bastava trocar ‘s’ por ‘x’, encaixar um ‘i’ no meio de algumas palavras, ir à praia e à academia o máximo de vezes possível na semana, apagar “arre égua” do meu dicionário e pronto, o projeto menino do rio estaria completo, certo? Incrível como preconceito simplifica tudo.

Mas equilibrar minha intenção com a expectativa alheia passou a me irritar. Parei num limbo onde meu sotaque não tem identidade, minha aparência não é estereótipo de nenhum dos dois estados, e as pessoas ao meu redor são cada vez mais estranhas.

Hoje apenas sei que não quero ser como elas, ou o que esperam que eu seja. Não quero que pensem que sei forró por ser do Ceará, que gosto de praia por estar no litoral, que desvio de bala por morar no Rio, que sou católico por ser brasileiro ou que tenho uma TV porque todo mundo tem. Não sou todo mundo. Ninguém é.

Viver outras vidas durante a única que tenho foi divertido, mas estou meio cansado de pretender ser. Só não sei bem o que sobra se tirar tudo o que sei que não sou.

PS: A idéia desse texto surgiu deste vídeo.

Super 8 e Super Pai

Você lembra do primeiro filme que assistiu? A sensação de entrar naquela sala escura pela primeira vez, o cheiro de pipoca e ar-condicionado, a textura do veludo nas paredes, o tecido da poltrona…

Ir ao cinema sempre me traz de volta um pouco dessa sensação. Não importa quanto tempo passe, meu deslumbramento ao ver minhas emoções iluminadas na grande tela não desaparece.

Hoje eu me lembrei do primeiro filme que acredito ter visto no cinema: História Sem Fim. Éramos apenas eu meu pai, pois minha irmã ainda era um bebê e minha mãe provavelmente havia ficado cuidando dela em casa. Fomos ao clássico Cine São Luiz, no calor escaldante do sol de Fortaleza que queimava o chão da Praça do Ferreira.

Compramos pipoca do lado de fora e aguardamos na fila a hora de entrar. Meu pai tentava me preparar para o filme, contando pequenos detalhes da aventura que estava prestes a ver e de como eu deveria me comportar no lugar. Lembro de olhar boquiaberto para o cartaz, imaginando quem eram aquelas criaturas que eu não conseguia descrever com as poucas palavras aprendidas.

Fiquei meio entediado no meio do filme e brinquei dizendo que a história não tinha fim (tu-dum tssss). Mas sai da sala contando o enredo do meu jeito pra todo mundo. Falava do dragão branco (tenho certeza que aprendi a palavra ‘dragão’ naquela hora), do monstro de pedra, da rainha, do herói e do cavalo que morreu triste (como se eu  já entendesse a morte).

Desde esse dia, cinema sempre foi algo ligado à figura dele. Por mais que eu tenha assimilado o gosto por cultura com os dois, e ambos costumem ver filmes e ler livros com muita frequência, intimamente era como se eu dividisse: leio por culpa da minha mãe, vejo filmes por culpa do meu pai.

Mas nunca um filme me fez lembrar disso tudo de um jeito tão forte. Assistindo Super 8 hoje, eu podia sentir os pêlos do meu rosto sumindo, meus poucos músculos encolhendo, minha estatura diminuindo e a dureza no olhar dando lugar ao deslumbramento inocente. Eu não era mais o webdesigner aspirante a escritor morador do Rio de Janeiro, mas o filho do Dourado e da “Mainha” vendo o mundo pela primeira vez.

Eu sei que entrei naquele cinema para ser enganado e provocado como os filmes devem fazer, mas o que eu ganhei foi um abraço fraternal de Spielberg, JJ Abrams e de meu pai. Eu me senti novamente um E.T., mas dessa vez um que queria voltar pra casa só para ter esse abraço de verdade.

Queria ter assistido esse filme com ele para poder sair da sala com a mão no seu ombro enquanto bagunça meu cabelo como sempre faz. Engraçado como parece que é preciso ser tirado do eixo para lembrar da falta que essa distância dele me faz. Super 8 fez isso comigo.

Acredito que uma obra cumpre seu verdadeiro papel como arte quando, ao final, em vez de “parabéns pelo trabalho” a vontade é de dizer “obrigado”.

Logo, muito obrigado aos envolvidos por fazerem eu me lembrar do abraço do meu pai tão vívidamente ao ponto de acreditar que ele finalmente havia vindo me visitar. Obrigado por me lembrarem dos outros pais e mães que conheci e que me marcaram cada um a sua maneira. Mesmo os que já foram serão lembrados sempre com o mesmo carinho que lembro do meu primeiro cinema.

Feliz dia dos pais.

PS: O meu péssimo senso de oportunidade me impede de fazer textos que calhem com alguma data comemorativa. Pela primeira vez isso aconteceu! Até por isso eu poderia agradecer. 🙂

E se…

E se todos os planos que fiz tivessem dado certo? Se eu tivesse passado no vestibular para informática, não para publicidade. Se tivesse feito faculdade em Campinas, não em Fortaleza. Se tivesse aprendido todas as línguas que um dia quis. Seria um nerd esquisito falando mandarim e puxando o erre. Esse seria eu?

E se tudo tivesse dado errado? Se eu não fosse formado até hoje, teria inventado algo para ganhar dinheiro. Estaria vivendo de arte, como tenho tanta vontade. Teria me dedicado mais ao que me dá prazer e receberia uma ajuda dos pais. Eu seria assim?

E se eu tivesse amado mais quem me amou e menos quem eu amei? Talvez nunca tivesse saído da minha cidade. Estaria casado, com um filha a cara da mãe, um trabalho estável e preocupado com o que jantar. Leria mais e não veria tantos filmes. Reclamaria da violência enquanto comprava um som novo para o carro. Eu, logo eu?

E se eu não tivesse amado ninguém? Preservaria minha irresponsabilidade adolescente e me mandaria pelo mundo. Moraria em São Paulo, Porto Alegre, João Pessoa, Áustria, Miami ou em todas as cidades ao mesmo tempo. Trabalharia pela internet de qualquer cafeteria e não teria raízes em lugar algum. Seria livre como sonhava ser. Eu?

Penso nas relações que nunca tive e onde elas poderiam ter me levado. E se tivesse ficado com a menina de sorriso tímido no colégio, estaria agora em Minas com ela? E se tivesse puxado assunto com aquela blogueira há anos, seria um “social media” como tantos que conheço? E por que mesmo não investi mais na loirinha do meu prédio que hoje vive no sul?

Penso também nas várias profissões que pensei em seguir. Quando era criança, eu salvei a vida de uma garoto mais novo que estava se afogando na piscina do meu prédio. Mergulhei e o tirei da água, com a ajuda do meu pai, quando ele já agonizava com a falta de ar. Sonhava, claro, em ser bombeiro depois disso, para salvar outras vidas. E se tivesse levado à sério? Ou se tivesse aprimorado o desejo e me tornado médico? Talvez assim eu tivesse mais firmeza nas mãos e autoconfiança, imagino.

Sonho acordado com os trilhos paralelos à minha vida. Quais desvios eu ignorei e em quais entrei inesperadamente? Hoje entendo quem acredita em destino. Deve ser muito gostoso acreditar que o caminho que você está é sempre o certo. Mas, estando onde estou, aprendi a encher a minha existência de perguntas. Portanto, será?

Será que em algum desses trilhos eu poderia ter cometido menos erros, vivido mais em menos tempo, escrito diariamente em um blog menos melancólico, tomado decisões com precisão e certeza, ter me tornado alguém mais útil. Ou poderia ser um inútil completo! Afinal, chances iguais.

Consigo aceitar que não existam certos e errados na vida. Aprendi com as pessoas dos outros vagões que esse maniqueísmo tão “lógico” não é bem uma verdade. Mas por que em alguns momentos o mundo parece esfregar na minha cara o que eu poderia (ou deveria) estar vivendo, só pela diversão de fazê-lo?

O Estrangeiro

O estrangeiro é como um alienígena de sitcom. Chegou a um planeta completamente desconhecido e tenta se mesclar aos terráqueos estudando o comportamento deles. Por quê? Para uma posterior invasão alienígena, quem sabe? O importante é que o E.T. aqui faz uma besteira atrás da outra tentando se adaptar ao novo mundo.

Primeiro, o estrangeiro acha que os nativos não fazem sentido. Ele não compreende como machos e fêmeas da espécie passam o tempo reclamando de si, sem nenhum dos lados escutar o outro. Também não entende que deixar de seguir no Twitter é como perder um amigo, mas desejar feliz aniversário pela rede é impessoal demais. Aliás, por que essa mania de segregação dos nativos? Zona urbana, moradia, estado civil, condição financeira, tudo é motivo para se fechar em grupos exclusivos. Além disso, como conseguem tanta disposição para brigas e discussões morando num mundo tão bonito e atraente a tantos alienígenas como ele por aí?

Bom, convenhamos, o estrangeiro também é estranho — como a etimilogia sugere. Para começar, vive se enrolando com tantas novas convenções sociais. E nem sempre acerta na combinação roupa/clima/ambiente. Também possui um senso de humor esquisito de autoflagelação e ironia pouco óbvias, incomum fora de seu planeta. Até mesmo a forma como fala confunde qualquer interlocutor nativo, com seu vocabulário próprio e pouco (ou excesso de) tato na postura.

Isso acaba fazendo com qum o estrangeiro também se sinta um pouco solitário. Não por falta de amigos — ele se beneficia da empatia dos nativos —, mas seus muitos medos, como o de ser inconveniente ou chato, tornam suas anteninhas de vinil e pele esverdeada difíceis de disfarçar. Ele sabe que uma coincidência evolutiva o fez biologicamente semelhante aos seus anfitriões, mas isso não o torna necessariamente um membro da espécie, como achou ser possível.

Não que isso faça muita diferença em sua cabeça. Tanto que o estrangeiro adora tirar onda de “estrangeiro” quando volta à sua terra. Imita os trejeitos e o palavreado do planeta hospedeiro tentando, em vão, enganar seus conterrâneos, só de sacanagem. Percebe-se que noção do ridículo não é uma de suas maiores habilidades.

A verdade é que o estrangeiro cometeu um erro. Ele ignorou seu guia (de mochileiro das galáxias) e se apaixonou perdidamente pelo seu novo mundo. O estilo de vida, as diferentes estações do ano, a geografia, o jeito engraçado e confiante dos nativos, as possibilidades que o planeta apresentou…

E tudo que ele mais quer na vida agora é ser feliz no mundo que ele descobriu. Mas, até nisso ele consegue se enrolar. Afinal, ser feliz não é o que todo mundo quer?

Bem (Mesmo) Sozinho

Hora de transformar meros conhecidos em grandes amigos. Esse foi um dos primeiros conselhos que recebi quando me vi sozinho no Rio de Janeiro. Mas nunca imaginei que fazer amigos depois de “velho” em minha nova cidade seria tão difícil.

Lembro que fazer novas amizades na infância era muito simples. Trocava socos com alguém no recreio, chutava a bola para o terreno vizinho, nos apaixonávamos pela mesma menina e, como se tudo isso fosse motivo, nos tornávamos melhores amigos. Mesmo 15 anos depois, continuamos assim, sem sequer lembrar a origem da amizade.

Aprendi com eles a fazer amigos para sempre. Não importa se uns ficaram ricos ou pobres, se casaram ou separaram, se mudaram de país ou de rua, ou se brigamos com ou sem motivo. Nossa cumplicidade deve se manter inabalável.

Na minha mudança para o Rio de Janeiro, fui muito bem recebido pelos amigos de minha… anfitriã. Eram pessoas simpáticas, extremamente inteligentes e admiráveis. Combinavam com ela e, consequentemente, me identifiquei com muitos deles. Mesmo sendo normalmente referenciado como “namorado de N.” (cargo que eu gostava de ocupar), sempre era tratado com simpatia e respeito. Até desocupar o cargo.

Depois disso, muitos se afastaram e eu me afastei de outros — os mais próximos a ela, por uma questão de sanidade. Ainda tentei manter contato com quem conversava mais, mas para alguns o respeito não era mais necessário ou apenas não tínhamos mais “assunto”. Eram amigos dela, não meus. E apesar das decepções, conheci quem valia a pena. Ainda assim, tinha um longo caminho para uma grande amizade.

Desde então, passei a desbravar novos ambientes e conhecer gente diferente. O dia a dia de trabalho, cursos breves de coisas que me interessavam e muita conversa pela internet me apresentaram pessoas com as quais me identificava. Logo, agora era sair algumas vezes para programas diferentes, jogar muita conversa fora para confirmar a afinidade inicial e, assim, sermos amigos, correto? Nem tanto.

Convites são ignorados, mensagens ficam sem resposta, pessoas somem, o “vamos marcar” nunca chega, pequenas mentiras são ditas, saudades são menosprezadas, imprevistos acontecem, agendas conflitam, tudo atrapalha. E o carinho que eu sentia por cada pessoa vai murchando. Enquanto a sensação de vazio vai crescendo.

E se eu precisar de alguém? Se adoecer ou acontecer um acidente? Se eu quiser comemorar algo, quem eu chamo? Se estiver triste e precisar de apoio? Em quem poderei confiar?

Identifico em certas pessoas as respostas para algumas dessas perguntas — sendo até surpreendido às vezes. Por isso, deposito nelas, mesmo com certo medo do que já foi vivido, minha confiança e meu carinho. E espero que o tempo apague meu medo e só nos torne mais próximos.

Portanto… Ei, você aí com quem eu falo de vez em quando e pergunto como está. Realmente gostaria de saber como está.
Você que convido para o cinema, teatro ou para tomar um chopp. Passei em frente a um local que vai gostar de conhecer. Vamos juntos?
Você que ganhou presente meu fora de qualquer ocasião só porque eu tinha certeza de que iria gostar. Bem que acertei, não foi?
Você que eu não vejo há meses. Eu sinto sua falta.
Você que mora na mesma cidade que eu, mas só nos falamos online. Eu gosto de você assim mesmo, mas acho que vou gostar mais se te der um abraço.
Você que sumiu. Apareça de novo, por favor. Não costumo esquecer meus amigos.

Eu me recuso a acreditar em quem fala que há um limite de idade para se fazer novos amigos. E também sei que preciso estar bem comigo, mesmo sozinho. Mas qual a graça de estar bem se não tiver ninguém para contar como estou?